Marcelo Gomes: Aluno, Colega e Professor

No dia 07 de abril de 2011, Marcelo Otávio Caminha Gomes, Professor Titular do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IFUSP), completou 70 anos. Infelizmente, no Brasil, este é um limite de idade em que todo o brasileiro detentor de um emprego público, com estabilidade funcional, é compulsoriamente aposentado. Por isso, seus amigos (professores, alunos e ex-alunos) do Departamento de Física-Matemática do IFUSP, coordenados por seu colaborador e amigo, o Professor Dr. Adilson José da Silva, estão preparando esta justa homenagem a ele. Sinto-me honrado e agradecido pelo convite para escrever sobre o Marcelo, intimidade essa de tratamento, que decorre de uma longa amizade.
Não falarei do Marcelo sobre o trabalho científico e sua vida acadêmica, pois basta acessar seu Currículo Lattes para atestar que eles foram muito importantes para a formação da base da Física Quântica: a Teoria Quântica dos Campos, objeto de um livro texto que escreveu, editado, pela EDUSP, em 2002. Este deverá, certamente, ser seu legado para a futura geração de físicos teóricos do Brasil. Falarei, sim, de nossa amizade, de sua importância em minha formação, assim como para a formação de alguns físicos da Universidade Federal do Pará. Quando for necessário, nessa minha homenagem, destacarei fatos curiosos e inusitados que aconteceram nessa longa trajetória de nossa amizade.
Conheci Marcelo ainda criança quando ia à casa dele, por volta do final dos anos da década de 1940 e começo dos anos de 1950, na Rua dos Tamoios, próximo da Travessa Apinagés, em Belém do Pará, entregar os sapatos que meu pai, Eládio, consertava para os pais e parentes daquele menino. Lembro também, quando seu pai, o famoso escritor brasileiro Luiz Teixeira Gomes (Jacques Flores), conversava com meu pai, enquanto esperava um conserto rápido de seu sapato. Aliás, essa relação de amizade entre nossos pais foi destacada no livro [Simplesmente … (Supercores, 2002)] escrito por sua irmã, a hoje Desembargadora aposentada Maria Lúcia Gomes Marques dos Santos.
Mais tarde, a partir de agosto de 1958, e nos anos de 1959 e 1960, o Marcelo foi meu aluno no Colégio Estadual “Paes de Carvalho”, o lendário CEPC (hoje, infelizmente, praticamente abandonado pelas autoridades públicas educacionais), período no qual concluiu o então Curso Científico. Como realizei o Curso de Engenharia Civil, na então Escola de Engenharia do Pará (EEP), entre 1954 e 1958, minha formação em Física decorreu, basicamente, do estudo que fiz nos três famosos livros do físico e engenheiro norte-americano Francis Weston Sears [Mecânica, Calor e Acústica, Tomo I; Magnetismo e Eletricidade,Tomo II; Ótica, Tomo III (Ao Livro Técnico Ltda., 1956)], livros esses que usava, dentre outros, na preparação de minhas aulas no CEPC. Foi durante o Segundo Ano Científico (1959) que Marcelo e eu tivemos o primeiro fato curioso de nossa amizade. O programa de Física para aquele ano envolvia a parte de Calor e Acústica. Na parte de Calor, trabalhei com a Termometria, Calorimetria e Teoria Cinética dos Gases. Como eu usava bastante Matemática em minhas aulas, uma vez, quando estava demonstrando as leis de transformações dos gases (isotérmica, isobárica, isovolumétrica, adiabática e politrópica), o Marcelo me interpelou dizendo que eu estava ensinando Matemática e não Física. Nessa época, nem eu e nem ele sabíamos o papel que a Matemática representava para a Física. Mais tarde, conforme veremos mais adiante, é que compreendemos aquele papel.
Completado o Curso Científico, em 1960, no começo do ano seguinte, Marcelo passou no Vestibular da EEP começando, então, a realizar o sonho dos adolescentes paraenses que gostavam de Matemática, qual seja, o de ser Engenheiro Civil, que era a única das especialidades das Engenharias ofertada pela EEP. Terminado o Primeiro Ano, Marcelo se preparava para fazer o Segundo Ano na EEP, pois, nessa época, os Cursos Superiores eram Seriados. No início de março de 1962, presumo que um fato inusitado, talvez mesmo inesperado, aconteceu a Marcelo, quando ouviu a pergunta que lhe fiz em sua casa: – Marcelo, queres ser um cientista?. Vejamos a razão dessa pergunta.
Em janeiro e fevereiro de 1962, o então Núcleo de Física e Matemática (NFM) da Universidade do Pará (UPA) [hoje, Universidade Federal do Pará (UFPA)], dirigido pelo professor José Maria Heskett Conduru, organizou um Curso de Extensão Universitária intitulado Matemática Aplicada à Física e Introdução à Física Atômica ministrado pelo geofísico brasileiro, o também paraense Carlos Alberto Dias, que acabara de concluir o Bacharelado em Física pela Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi). A recomendação do Dias para ministrar esse Curso foi indicada pelos saudosos físicos brasileiros José Leite Lopes e Jayme Tiomno, seus professores no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). O Curso, que teve como texto básico o livro do professor Leite Lopes [Introdução à Teoria Atômica da Matéria (Ao Livro Técnico Ltda., 1959)], iniciou com vinte (20) professores-alunos e terminou com cerca de cinco (5), sendo eu um deles. Enquanto o Dias ministrava o Curso referido, ele e eu, em conversas no carro, que eu possuía na época, um Vanguard, durante o nosso deslocamento para o NFM (localizado em um prédio, hoje demolido, em cujo local é o atual estacionamento da Secretaria Municipal de Educação, na Avenida Governador José Malcher), idealizamos um plano de formação de paraenses, tendo em vista a tese do Dias de que existia petróleo na Amazônia, contra a tese do geólogo norte-americano Walter Link. Este havia preparado, em 1961, um relatório – o famoso Relatório Link – para a PETROBRÁS, no qual afirmava a inexistência de petróleo na Amazônia, apesar do poço perfurado em Nova Olinda, localizado na bacia do Médio Amazonas, haver jorrado petróleo, em 1955. Pois bem, para o Dias, o método de prospectar petróleo na Amazônia é que estava errado, pois os engenheiros, executantes do projeto, usavam ondas sonoras, decorrentes de explosão de dinamite (método sísmico), ondas que não tinham energia suficiente para penetrar a camada de basalto, acima do lençol de petróleo. Dias, havendo estudado Eletromagnetismo com o físico brasileiro Herch Moysés Nussenzveig, no CBPF, acreditava que a maneira de penetrar aquela camada seria por intermédio de ondas eletromagnéticas.
Com essa ideia em mente, e considerando ser esse método de prospectar, um método geofísico, Dias e eu começamos a pensar na formação de um grupo de físicos, geólogos e geofísicos paraenses que poderia promover o desenvolvimento científico e tecnológico de nossa região amazônica. Assim, logo em março de 1962, iniciamos essa formação. Por indicação do saudoso Professor Djalma Montenegro Duarte (que ministrava Física na EEP) e minha, dois alunos da EEP foram transferidos para o Rio, a fim de concluírem, na FNFi, o Bacharelado em Física: o Marcelo e o hoje físico brasileiro Carlos Alberto da Silva Lima, que também havia sido meu aluno no CEPC. Essa transferência decorreu de um Programa de Cooperação entre a então UPA e o CBPF. Eis, então, a razão daquela pergunta feita ao Marcelo. Creio ser oportuno dizer que eu, naquela ocasião, não tinha ainda conhecimento mais profundo do que era ser um cientista, pois sabia apenas que essa nossa atitude, com certeza, representava uma mudança intelectual na formação tradicional do paraense. Como já sabia também o que significava uma transformação invariante, pois havia estudado Álgebra Linear (com o saudoso matemático paraense Rui da Silveira Britto), eu dizia que Dias e eu iríamos formar um grupo de paraenses invariante por uma transformação de autoridade pública (Reitor, Governador, Prefeito etc.)
O Movimento Militar (MM) de 31 de março de 1964 fez com que Marcelo e eu vivêssemos uma nova situação inusitada em nossa amizade. Com efeito, em consequência desse Movimento, o Professor Tiomno foi para a Universidade de Brasília (UnB), a fim de ajudar o Professor Roberto Aureliano Salmeron na consolidação do Instituto Central de Ciências, do qual era Diretor. Tiomno passou a dirigir o Instituto Central de Física, em substituição ao Professor Leite Lopes, que se encontrava no exterior. Como a situação no NFM estava se tornando insuportável, pela “caça aos comunistas” empreendida pelos militares, e sendo eu considerado um comunista autêntico, que dirigia uma célula comunista, apesar de nunca ser filiado ao então Partido Comunista Brasileiro (o PCBÃO), decidi aceitar o convite do Professor Tiomno e fui, em março de 1965, para a UnB com o propósito de realizar o Bacharelado em Física. Foi por essa ocasião que aconteceu a nova situação referida acima: fui colega de turma do Marcelo, no curso de Física Atômica I, ministrado pelo Professor Salmeron e, ao mesmo tempo, também recebi ensinamentos do Marcelo, que também corrigia as listas de exercícios e provas da disciplina Eletromagnetismo I, lecionada pelo Professor Tiomno. Ainda como consequência do MM, a UnB foi interrompida (para usar o título do livro que o Professor Salmeron escreveu, em 1999, editado EDUnB) pela demissão de 223 professores, no final de outubro de 1965. Com isso, retornei a Belém e o Marcelo ao Rio de Janeiro. É oportuno registrar, além disso, que Marcelo e eu, juntamente com mais seis (6) colegas paraenses [Manoel Moutinho (este estudava Matemática), Carlos Lima, Augusto José Dias, Antonio Gomes de Oliveira, Luís Fernando da Silva e Antonio Fernando dos Santos Penna, já falecido] e dois cariocas (Mário Novello e Renato Laclette), morávamos em uma república na Avenida W-2, nos altos da Padaria Bambina.
Somente em 1968, Marcelo e eu voltamos a nos encontrar, desta vez no então Departamento de Física da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, para realizarmos o Mestrado em Física. Desta vez, o Marcelo foi meu professor, pois dava aulas de exercícios da disciplina Eletrodinâmica Clássica I, ministrada pelo Professor Antônio Luciano Leite Videira, cujo livro texto era o de John David Jackson [Classical Electrodynamics (John Wiley, 1962)]. Como morávamos juntos no Bloco F, apartamento 505, do Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (CRUSP), tive oportunidade de aprender com o Marcelo muita Física-Matemática, na ocasião em que, depois de jantarmos no Bandejão (Restaurante Universitário), andávamos nos corredores entre os Blocos do CRUSP, para fazer a digestão e, então, eu aproveitava a oportunidade para tirar dúvidas de Eletrodinâmica Clássica, bem como de outra disciplina que eu fazia a qual envolvia Física-Matemática ─ que era a Mecânica Quântica I ─, com o saudoso Professor Jorge André Swieca. Nesta ocasião, é interessante destacar dois episódios inusitados de nossa amizade. O primeiro, quando o questionei (como ele me havia feito em 1959), se ele estava ensinando Física ou Matemática. É claro que, isso foi uma brincadeira, pois já sabíamos qual o papel da Matemática na Física. O segundo episódio foi quando disse a ele que o Luciano (como eu o chamava, pois já éramos amigos) ficava impressionado como o Marcelo dominava bem a Física-Matemática, principalmente as Funções Especiais, pois, resolvia os problemas do Jackson sem usar nenhum lembrete, apenas, usava o seu cérebro e seu grande talento.
Creio, nesta altura dessas recordações sobre a nossa amizade, destacar três mais alguns pontos marcantes em nossas vidas. O primeiro ponto marcante foi o acidente de carro que sofremos, no dia 17 de maio, na Cidade Universitária Armando Sales de Oliveira (CUASO) da USP. Morávamos no CRUSP e íamos no Circular Interno dessa Cidade para o Departamento de Física (DF), que fazia limite com as dependências do Reator Nuclear. Contudo, um casal de amigos (Herberto Tocantins Maltez e Maria Gil) que também morava no CRUSP, estava se preparando para ir à França e realizar o Doutoramento. Como o Herberto tinha um carro da marca Dauphine, vendeu ao Marcelo, que começava a aprender a dirigir, indo e voltando, junto comigo, do CRUSP ao DF. Naquele dia 17, do “ano que não acabou” (segundo o jornalista Zuenir Ventura), no final da tarde, estávamos voltando para o CRUSP quando, na curva entre a reta que passa pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e a reta que ia ao CRUSP, por um descuido do Marcelo, ele colidiu com um poste. Como o poste se encontrava do meu lado, fui o mais atingindo, com cortes superficiais no rosto. O Marcelo teve apenas um pequeno corte do polegar direito. Imediatamente apareceu uma ambulância que nos levou ao Hospital Universitário. Contudo, em lá chegando, não puderam fazer nada, pois, segundo o Departamento de Trânsito da Cidade de São Paulo, qualquer acidente envolvendo sangue, deveria ser mandado para o Hospital das Clínicas (HC). Assim foi feito e, dentro da ambulância, Marcelo e eu fomos levados para esse Hospital. Quando as portas da ambulância foram abertas, uma multidão de repórteres e fotógrafos logo se aproximou, pois o Dr. Euryclides de Jesus Zerbini estava esperando um doador para fazer o pioneiro transplante de coração na América Latina (que aconteceu no dia 26 de maio) de seu paciente João Ferreira da Cunha (“João Boiadeiro”). Percebendo essa situação, levantei-me e disse a eles: – Calma, estou vivo. Bem, Marcelo e eu entramos no Pronto Socorro do HC e, depois de esperarmos várias horas, fomos atendidos. Quando saímos do HC, por volta das nove horas da noite, estava nos esperando um “fusca” da Polícia. Um soldado se aproximou de nós e perguntou se éramos do acidente da Cidade Universitária. Dissemos que sim, e, então, fomos convidados a entrar na viatura e irmos para a 34a. Delegacia de Polícia, a fim de prestarmos depoimentos.
Aí, começou uma outra situação característica do Brasil (e quiçá do mundo). Quando falamos ao policial que não tínhamos Carteira de Motorista (a minha ficara em Belém), o policial então, depois de um pequeno “agrado” (insistido por mim, uma vez que o policial estava preocupado com nós dois), sugeriu que arranjássemos, então, algum colega que a tivesse. Dissemos a ele que tínhamos, no CRUSP, um colega que tinha: era o Newton Theophilo de Oliveira, um aluno cearense que dirigia uma Wemaguete. O policial deu ordem ao motorista do “fusca” para seguir até o CRUSP. Depois de explicar essa situação ao Newton, ele se prontificou a seguir conosco para a referida Delegacia. Quando estávamos prestando os nossos depoimentos, o Delegado de Plantão, vendo o Newton, o então motorista, sem nenhum ferimento, o Marcelo apenas com um esparadrapo no polegar direito, e eu com o nariz todo consertado (aliás, mal consertado pelos médicos de plantão, pois, durante anos, eu já em Belém, de vez em quando, meu nariz expulsava um pedacinho de vidro deixado pelo para-brisa do carro do Marcelo), cismou, logicamente, que era eu o Motorista. Conversa vai e conversa vem, disse ao Delegado que éramos professores de fora de São Paulo e que estávamos fazendo o Mestrado em Física. Esta palavra foi o abre-te sésamo, pois como ele era parente do Professor Rômulo Pieroni, físico, que ajudar a construir o Reator Nuclear de São Paulo, compreendia bem os físicos. Com isso, ele apressou os depoimentos e concluiu o processo no qual, eu, como vítima, estava processando o Newton Teophilo, por lesões corporais leves. Em agosto de 1968, Newton e eu fomos chamados à Delegacia para saber do andamento do Processo. O Newton entrou sozinho no Gabinete do Delegado. Depois de alguns minutos, saiu e me disse que o Processo havia sido arquivado, graças a um novo “agrado”, desta vez quatro vezes maior do que o primeiro: não sei se foi dado voluntariamente pelo Newton ou se foi sugerido pelo Delegado, pois o Newton não me disse nada.
O segundo ponto marcante refere-se ao fato de que, como estávamos ligados (juntamente com outros colegas, o Jayme Warzawski e sua então esposa Regina) ao Professor Tiomno, ─ que havia realizado, no final de 1967, Concurso para a Cátedra de Física Teórica e Superior (cujo responsável era o Professor César Lattes e que, no entanto, desistiu de concorrer), ─ éramos considerados no ambiente do DF como estranhos no ninho uspiano. Essa situação foi uma consequência do ocorrido em maio de 1968, no qual Daniel Cohn-Bendit liderou os estudantes franceses em busca de uma reforma universitária. Pois bem, essa “onda reformista” atingiu a USP, em junho de 1968, gerando uma célebre reunião que aconteceu no então Auditório Alessandro Volta do DF, agrupando os maiores físicos brasileiros, dentre os quais me recordo dos seguintes: Mário Schenberg, Leite Lopes, Tiomno e sua esposa Elisa Frota Pessoa, José Goldenberg, Newton Bernardes e Oscar Sala, para discutirem o futuro da Física Brasileira. Por ocasião dessa discussão, houve entre eles uma verdadeira “lavagem de roupa suja”, com acusações mútuas, sendo Tiomno um dos alvos dessas acusações. Dias depois dessa reunião, alguns prédios do DF foram pixados com os seguintes dizeres: – Fora Tião Medonho e sua camarilha. Era uma alusão ao Professor Tiomno e ao seu grupo, do qual pertencíamos (Marcelo, Jayme, Regina e eu), e os professores Swieca e Luciano. É interessante ressaltar que “Tião Medonho” era um famoso bandido carioca que havia liderado o roubo do trem pagador da Central do Brasil, em 1960.
O terceiro fato foi muito mais traumático para nós, os então cruspianos. Trata-se da nossa prisão em decorrência do Ato Institucional Número. 5 (AI-5) – assinado no dia 13 de dezembro de 1968. Como essa prisão, ocorrida na madrugada do dia 17 do mês natalino, por mim já reportada com alguns detalhes (www.bassalo.com.br/blog), nesta homenagem ao Marcelo vou destacar apenas alguns aspectos da prisão envolvendo nós dois. Com a Edição do AI5, o Comando de Caça aos Comunistas (CCC) resolveu festejar, metralhando, à noite do dia 13, o Bloco 5 do CRUSP, onde morávamos, e no dia 15 o CCC voltou a metralhar o CRUSP. Nessa ocasião, foi o Bloco A, no qual moravam as cruspianas. Por sua vez, o poder político-militar instituído também fez sua celebração do AI-5, promovendo a invasão do CRUSP, na madrugada do dia 17 de dezembro, por tropas do II Exército e da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Como havíamos sido metralhados (mas os tiros não nos atingiram, pois dormíamos no chão próximo da parede), temíamos que algo pior pudesse acontecer. Assim, depois de eu realizar, à tarde do dia 16 de dezembro, véspera da referida invasão, uma prova de Relatividade Restrita, ministrada pelo Professor Tiomno e auxiliado pelo meu grande amigo, o Professor Mauro Sérgio Dorsa Cattani (meu orientador das Teses de Mestrado e Doutorado), e hoje, somos autores de vários artigos e de livros didáticos. Concluída a prova, e voltando para o nosso apartamento, depois do jantar, comecei a preparar os relatórios à Coordenação do Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e à Universidade Federal do Pará (UFPA), já que pretendia retornar a Belém, via Rio de Janeiro, no dia 21 de dezembro. Quando terminei de preparar os relatórios, cerca de duas horas da manhã do dia 17, fui à janela do apartamento respirar, aliviado das tarefas e em seguida ir me deitar. No entanto, da janela, notei que o silêncio da madrugada tépida que cobria o CRUSP, estava sendo perturbado por um ruído estranho, como se um furtivo comboio de carros estivesse entrando no campus da USP. Como era de madrugada, tive de aguçar a visão para ver que tipo de barulho era aquele. Qual a minha surpresa, percebi que eram tanques do Exército, cerca de 17 unidades, conforme verificamos mais tarde. Imediatamente acordei o Marcelo e o Maurízio Ferrante (engenheiro mecânico), que também morava conosco, para verem o que estava acontecendo. De pronto, subi ao apartamento 611, a fim de avisar o Newton Theophilo. Juntos, e apavorados, ficamos esperando o que iria ocorrer.
Cerca de seis horas da manhã, o comandante da operação-invasão, um oficial-general do Exército, vestido com uniforme de campanha, ordenava aos cruspianos, através de um megafone, que descessem dos apartamentos, apenas com a roupa que estivessem usando. Desse modo, ficamos horas sob os pilotis do prédio, aguardando que fosse feita a revista-cívica no CRUSP. Ela foi praticada, prédio por prédio, andar por andar, apartamento por apartamento, por um sargento e um oficial, ambos do Exército, em busca de material altamente subversivo.
Concluída a famigerada revista-moralista (meses depois, houve uma exposição na Avenida Paulista sobre o que haviam encontrado no CRUSP, com ênfase para os preservativos recolhidos, e um relógio-despertador considerado como uma bomba-relógio) em todo o CRUSP, por volta de três horas da tarde, ficamos presos sob os pilotis de cada prédio, rodeados por policiais-militares que usavam cães amestrados para nos manter em “forma”, além de simular fuzilamento, toda a vez que o grupo cantava o hino da Internacional Socialista.
Não conformados com a humilhação de sermos revistados, com fome, com apenas a roupa do corpo, e sem saber o nosso destino, os invasores resolveram nos humilhar mais ainda. Depois de requisitarem ônibus da então Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC), que faziam linha para o campus da USP, fomos levados à Prisão Tiradentes. Chegando nesse local, fomos saudados pelas prostitutas paulistas que foram soltas, para que houvesse lugares onde colocar as cruspianas. Estas se revoltaram e disseram que não entrariam nas celas. Depois de algum tempo de negociação, foram soltas. Porém, nós, os cruspianos, ficamos presos. Como éramos cerca de mil, foi feita uma relação de todos. Cada um de nós dava nome e endereço e depois, subia para as celas. Contudo, Marcelo, Jayme, eu e mais alguns pós-graduandos, deixamos para dar nossos nomes, apenas no final dessa convocação. Depois de fichados (sem, contudo, sermos fotografados e nem registradas nossas impressões digitais), cerca de dez horas da noite, quando íamos subir para a cela, veio um Delegado, com uma lista na mão, e começou a ler alguns nomes, que seriam soltos. Que alívio, quando ouvi meu nome, assim como o do Marcelo e do Jayme, dentre outros. Essa ordem de soltura decorreu do fato de que o Professor Tiomno foi ao então Reitor da USP, Professor Hélio Lourenço de Oliveira, dizer-lhe que precisava fazer alguma coisa, pois haviam sido presos alunos de pós-graduação, que, contudo, eram professores de outras universidades, como, por exemplo, o meu caso. Então, esse professor foi ao comandante do II Exército com uma lista de pós-graduandos, que moravam no CRUSP. Desse modo, fomos soltos.
Apesar de soltos (Marcelo, Jayme e eu), restava uma questão. Para onde ir, cerca de onze horas da noite, já que não podíamos voltar ao CRUSP, que estava ocupado militarmente? Pegamos um táxi e fomos ao apartamento do Professor Tiomno, que morava na rua Maria Figueiredo, no Bairro do Paraíso, a fim de nos orientar para onde deveríamos nos dirigir. Em lá chegando, cerca de meia-noite, cansados, sujos e famintos, a professora Elisa tratou-nos como uma verdadeira mãe. Enquanto tomávamos banho, ela preparou um excelente jantar, com frango e macarrão, um bom vinho e uma sobremesa de pêssegos em calda. Dormimos com pijamas do próprio professor.
Nessa altura, cremos ser necessário dar uma explicação da razão pela qual o CRUSP foi metralhado pelo CCC, bem como foi invadido pelos militares. O CRUSP era considerado um território livre para os que queriam lutar contra o regime de exceção, que havia se implantado no Brasil a partir de 1964. Desse modo, para lá iam se homiziar os líderes estudantis brasileiros, tais como Wladimir Palmeira, Luiz Travassos (este, morto posteriormente em circunstâncias estranhas, no Rio de Janeiro, vítima de um atropelamento), presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), e José Dirceu, então líder dos estudantes secundários paulistas e, depois, o principal conselheiro do Governo Lula (Luís Inácio “Lula” da Silva).
Depois de soltos, Marcelo ficou em São Paulo e eu voltei a Belém. Como precisava concluir minha pós-graduação em Física, voltei para o DF/USP, em março de 1969. Como o CRUSP havia sido interditado, Marcelo, Alfredo Pio Noronha Galeão, Arnaldo Homobono Paes de Andrade e José Raymundo Ribeiro Serra (estes dois últimos são paraenses) e eu alugamos uma casa, de dois pavimentos, na Rua Agostinho Cantu, paralela à Avenida Waldemar Ferreira, porém próxima do rio Pinheiros. Jayme e Regina, também alugaram uma outra casa, desse mesmo conjunto de casas. O primeiro semestre de 1969 corria normalmente, quando, em 28 de abril de 1969, foi editado o Ato Complementar Número 75 do AI-5, aposentando, compulsoriamente de suas Cátedras, eminentes cientistas brasileiros (p.e.: Leite Lopes, Schenberg e Florestan Fernandes), bem como o casal Elisa e Jayme Tiomno. Aliás, a “camarilha do Tião Medonho” estava no apartamento desses, a fim de prestar-lhes solidariedade e confirmar, ouvindo a Hora do Brasil, o que a “rádio cipó” no campus da USP falara sobre tais aposentadorias. Quando essa notícia chegou aos quatro cantos do mundo houve, por parte de também eminentes cientistas estrangeiros, uma consternação geral, o que provocou uma série de telegramas de protesto contra essas aposentadorias e de solidariedade aos atingidos. Por exemplo, o físico sino-norte-americano Chen Ning Yang (Prêmio Nobel de Física de 1957), com quem Tiomno realizou um importante trabalho em 1950, endereçou ao General-Presidente Artur da Costa e Silva um telegrama no qual apelava para que ele revisse a aposentadoria forçada do casal Tiomno, de Leite Lopes e de Schenberg, consciente de que tais aposentadorias, decerto, provocariam o fim da pesquisa teórica no Brasil. Novamente, a “camarilha” estava presente no apartamento do casal Tiomno quando uma cópia do telegrama de Yang chegou: era 05 de junho de 1969. Com a aposentadoria do Professor Tiomno, que ensinava a disciplina Eletromagnetismo I para as turmas do terceiro e do quarto anos do Bacharelado em Física do DF/USP, Marcelo, que era seu assistente, passou a reger essa disciplina. Nessa oportunidade, creio ser interessante relatar, ainda, um fato importante para a vida futura do Marcelo, decorrente dessa regência.
Quando eu fazia o Curso de Física Matemática com a saudosa Professora Carmen Lys Ribeiro Braga, tive três colegas pernambucanos: Maurício Domingues Coutinho Filho, Marco Gameiro de Moura e Ivon Palmeira Fittipaldi que, mais tarde, sob a liderança do ex-Ministro da Ciência e Tecnologia do Governo Lula, Sérgio Machado Rezende, com a colaboração dos físicos, os pernambucanos Cid Bartolomeu de Araújo e José Roberto Rios Leite, deram continuidade ao desenvolvimento da física internacional, particularmente a pernambucana, já iniciada pelo saudoso físico Luís Freire, na década de 1930. O que esse preâmbulo tem a ver com a minha amizade com o Marcelo, principal foco desse artigo? Como vimos acima, Marcelo ministrava aulas (primeiro como assistente e depois como titular) para uma turma na qual pertenciam várias alunas. Dentre elas, a então Suely Pacios Lopes, tirava o seu sossego emocional. Porém, como era bastante tímido, não tinha coragem de dizer que estava apaixonado por ela. Como eu sabia dessa paixão, pois morávamos juntos e ele comentava sempre comigo, resolvi dar uma ajuda. Para isso, contei com a colaboração de meu amigo Marco Gameiro. Descobrimos o dia em que ela fazia aniversário, num sábado bem próximo a da última conversa que Marcelo e eu tivemos na casa onde morávamos. Assim, fomos comprar um buquê de flores e entregamos no bangalô onde ela morava, no Largo de Pinheiros, dizendo que tinha sido mandado pelo Marcelo. Na segunda-feira, quando ele foi ministrar sua aula, ela agradeceu o presente e, a partir daí, começaram a namorar e casaram.
Concluindo essa recordação de nossa longa amizade, é interessante registrar que, depois de meu retorno a Belém, em julho de 1969, o Marcelo terminou seu Mestrado em Física, ainda em 1969, no DF/USP, cujo orientador foi o Professor Swieca. Em 1970, foi para Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, onde cursou e concluiu seu Doutoramento em Física, em 1972, orientado pelo físico norte-americano John H. Lowenstein. Este havia sido Professor Visitante do DF/USP em 1968 e 1969. É também oportuno registrar que conclui o Mestrado e o Doutorado em Física, em 1973 e 1975, respectivamente, com o meu amigo Cattani, conforme registrei acima.
Quando nossas situações, na USP e na UFPA, estavam consolidadas, Marcelo e eu, continuamos a formação de físicos paraenses, tendo Marcelo orientado Teses de Mestrado e de Doutorado dos hoje professores da UFPA: Alexandre Guimarães Rodrigues (Mestrado e Doutorado), Sérgio Vizeu Lima Pinheiro (Mestrado) e Van Sérgio da Silva Alves (Mestrado e Doutorado). Marcelo também foi o orientador de Silvana Perez, atualmente professora da UFPA.
Quero encerrar essa homenagem ao Marcelo, dizendo que nossa amizade foi coroada com a sua participação na Banca Examinadora (BE) do Concurso para Professor Titular do então Departamento de Física da UFPA, a que me submeti, juntamente com o físico-matemático paraense Luiz Carlos Lobato Botelho, em novembro de 1987. É interessante dizer que esse coroamento, teve a participação do Dias (então na UFPA), que havia iniciado comigo, em 1962, a formação de físicos e geofísicos paraenses, conforme também registrado acima. Anoto, por fim, que os três Membros restantes da BE foram os professores Cattani (da USP), o saudoso Curt Rebello Sequeira (da UFPA) e Bin Kang Cheng, da Universidade Federal do Paraná.

No comments yet.

Leave a Reply