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Entrevista com o jornalista Walter Pinto ¹
(Beira do Rio, janeiro de 2006.)
1- Professor, a aposentadoria compulsória é um prêmio ou um castigo?
R. De um modo geral, para as Universidades Estatais, a aposentadoria compulsória é um duplo castigo: pessoal e institucional. Pessoal, pois o professor, que decide ficar na Instituição até a idade da compulsória (70 anos, agora, ou 75 anos, futuramente), é obrigado a interromper suas atividades acadêmicas obrigatórias (ensino-pesquisa). Institucional, pois, apesar de o professor poder continuar com a sua atividade de pesquisa depois de aposentado, ela não mais terá uma ação direta com o ensino. Embora haja casos de ações com a Universidade por intermédio do Título Honorífico (ou Epitáfio Universitário?) de Professor Emérito, este não tem a obrigação de preservar o elo dialético ensino-pesquisa, necessário para manter atualizado, quer o professor, quer o aluno. Em meu entendimento, somente com a institucionalização da categoria de Professor Aposentado poderá continuar aquele elo. Esta categoria (que talvez possa ser incluída no Novo Regimento da UFPA) é uma idéia minha, que discuti com alguns professores (alguns deles, Reitores) da UFPA há alguns anos. Basicamente, esse tipo de Professor permaneceria no Corpo Docente da Universidade até quando ele quisesse. Para ter os direitos inerentes à docência-pesquisa, o professor deveria orientar (TCC, Mestrado, Doutorado, Pós-Doutorado) estudantes. Quando houvesse necessidade de um Curso Especial, o professor seria solicitado pelo Grupo de Pesquisa ao qual estivesse vinculado, e deveria ser remunerado de acordo com a sua categoria.
2- O sr. se sente recompensado por tantos anos de dedicação à docência e à pesquisa?
R. Sim, pelos alunos que tive, pelos amigos (alunos e/ou professores) que fiz
e pelos artigos e livros que escrevi. O leitor poderá ver detalhes dessa relação
em minha HP: www.bassalo.com.br/memórias/formação/magistério.
3- O que o sr. gostaria de ter feito, e não teve chance de fazer na UFPA?
R. Gostaria de ter criado o Instituto de Ciência e Tecnologia da Amazônia (ICTA), sonho de mais de trinta anos, para estudar e apresentar soluções para os problemas científicos-tecnológicos inerentes à nossa Região.
4- Na sua opinião, o que deve mudar urgentemente na universidade pública brasileira?
R. Instituir a meritocracia para o servidor (funcionário e professor). Quem produz mais e com qualidade, deve receber mais.
5- O sr. acha que o novo estatuto que entrará em vigor na UFPA vai resolver os problemas da instituição?
R. Sim, se houver uma mudança de paradigma (no sentido Kuhniano do termo) em suas atividades básicas: ensino-pesquisa-extensão. Explico-me. Pela entrevista dada pelo Reitor da UFPA, Professor Doutor Alex Fiúza de Melo, no Programa Sem Censura-Pará (dia 27 de dezembro p.p.) e na conversa que ele teve com alguns professores do Mestrado da Física (dia 28 p.p.), o Novo Estatuto da UFPA, recentemente aprovado pela quase totalidade (98%) dos membros do CONSUN, basicamente, resume-se em duas grandes alterações: de forma, mudando o nome dos atuais Centros [ou da provável reunião (por interesse acadêmico ou financeiro?) de alguns Departamentos de Centros afins] para Institutos; e de fundo, reunindo as funções do Departamento e do Colegiado de Curso em uma nova unidade acadêmica: a Faculdade. Contudo, caso não haja uma mudança paradigmática nessa nova unidade acadêmica, ela voltará a ser ao que existia antes da criação da UFPA: Faculdades e Escolas isoladas, formando apenas profissionais liberais para o mercado consumidor, que era o paradigma então vigente. Hoje, no entanto, a preparação de um profissional (graduado ou pós-graduado) para esse mesmo mercado tem de levar em conta que o Conhecimento [básico (via Ciências Básicas: exatas, naturais, biológicas, humanas, sociais), aplicado (via Ciência Aplicada: engenharia, arquitetura, economia, médica, jurídica, lingüística) ou Artístico (literatura, música, pintura)] inerente à sua formação, se organiza em duas dimensões complementares: espacial e temporal. É espacial, pois os conceitos, leis, modelos e teorias que caracterizam o seu conhecimento, se relacionam entre si e com os dos outros conhecimentos; e é temporal, pois eles mudam com o tempo. Portanto, em meu entendimento, o currículo do novo graduado ou pós-graduado da UFPA (quiçá de qualquer Universidade Brasileira), em uma determinada parte do Conhecimento Humano, deverá conter informações, obrigatórias, sobre sua Epistemologia e Evolução Histórica. Este, me parece, será um novo paradigma para a nova UFPA. Na conclusão desta resposta, gostaria de fazer um comentário sobre o NOVO ESTATUTO da UFPA. Ele contém, ainda em meu entendimento, um EQUÍVOCO, qual seja, o de extinguir os Departamentos. Como uma grande maioria dos atuais Departamentos da UFPA reúne alguns grupos de professores trabalhando em áreas de pesquisa diferentes, tais grupos deveriam ser transformados em Departamentos, que, por sua vez, se reuniriam em um Instituto específico. Por exemplo, o atual Departamento de Física se transformaria no Instituto de Física, composto dos Departamentos de Física Matemática, Física Básica e Física Aplicada. Os atuais Centros, ou seriam extintos ou se transformariam em Institutos Centrais. No caso de ser mantido o Centro, ainda como exemplo, o atual Centro de Ciências Exatas e Naturais, passaria a denominar-se Instituto Central de Ciências Exatas e Naturais, composto dos Institutos de Física, de Química, de Matemática e de Estatística e Informática. Esta foi a Proposta que apresentei ao CONSUN, em março de 2000, quando pertencia ao CONSEP. Em tempo: O físico e filósofo da ciência Thomas S. Kuhn (1922-1996), em seu famoso livro A Estrutura das Revoluções Científicas (Perspectiva, 1975, p. 13), escreveu: Considero “paradigmas” as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência. A tese central desse livro é a seguinte: Quando esses problemas e soluções não mais servem a uma determinada comunidade científica, deve haver uma “revolução” (um corte epistemológico), para provocar uma mudança de paradigma. A partir desse livro, o conceito de “paradigma” universalizou-se.
6- Greves em geral, especialmente as de cem dias, trazem algum benefício para a universidade?
R. Os resultados que as greves apresentaram, desde quando começaram, em 1980, até esta última, foram pífios (é certo que alguns professores se beneficiaram de algumas delas, porém, por mera conjuntura, induzida, aliás, pelo próprio comando de greve), cujos únicos prejudicados foram os alunos de graduação (as reposições de aulas são prejudicadas pela interiorização e perdem oportunidade de fazer pós-graduação pelo atraso na formatura), uma vez que a pós-graduação não deixa de funcionar. Contudo, elas nos ensinaram uma lição: a solução dos graves problemas do Ensino (em todos os graus) Brasileiro NÃO PASSA POR IDEOLOGIA TERCEIRO-MUNDISTA, uma vez que fizemos greve contra governantes ditadores de extrema-direita e governantes democratas: de direita, de centro, de centro-direita, de centro-esquerda e de esquerda. Portanto, passamos por toda a gama ideológica terceiro-mundista. Enquanto o Brasil não gerar capital (e, portanto, não depender de empréstimos externos ou de investimentos especulativos, internos e externos), via tecnologia oriunda de ciência básica, os problemas do ensino brasileiro continuarão os mesmos: servidores (funcionários e professores) mal remunerados, investimento insuficiente em pesquisa, e sem uma postura verdadeiramente socialista (tomar o homem como o maior patrimônio de qualquer país) de nossos governantes, para considerar a Educação como investimento e não como gasto. Se isso não acontecer, as greves de cem dias ou mais, continuarão.
7- Os instrumentos de apoio à pesquisa e ao desenvolvimento tecnológico e científico no Estado do Pará são eficazes?
R. Até o momento, o Estado do Pará não possui uma Fundação de Amparo à Pesquisa (FAPESPA) (com o objetivo básico de formar pesquisadores voltados ao desenvolvimento tecnológico e científico do Estado), como acontece com a quase totalidade dos estados brasileiros (FAPESP, FAPERJ, FAPEMIG, FAPERS, FAPEPE, FAPEAM, FAPEMA, FAPECE, FAPEES, FAPEAL etc.) E, por isso, verbas federais deixam de ser repassadas para o Estado. Desde 1989, por proposta do então Deputado Estadual, meu amigo Aldebaro Barreto da Rocha Klautau (decorrente de conversas que mantínhamos quando éramos colegas no extinto DMER-Bl), foi aprovado um dispositivo (artigo 291) em nossa Constituição Paraense que permite a criação da FAPESPA. Para essa aprovação, foi importante o lobby que eu e mais alguns pesquisadores paraenses (Afonso Brito Chermont, Antonio Gomes de Oliveira, José Francisco Ramos, José Seixas Lourenço, Juan Lorenzo Bardalez Hoyos, Luís Aragón, Luís Ercílio do Carmo Faria Júnior, Norbert Fenzl, Reginaldo Wanghon Monteiro e Sidney Emanuel Batista dos Santos), com o apoio do então Presidente da SBPC, o físico Ennio Candotti, e do então Reitor da UFPA, o geofísico Nilson Pinto de Oliveira, fizemos junto à Assembléia Legislativa do Estado (lembro-me de haver falado pessoalmente com os Deputados Ronaldo Passarinho, meu amigo de infância, e Edson Matoso). Contudo, a Lei Complementar (misteriosamente sumida dos Anais da Assembléia) para a criação da FAPESPA apresentada pelo Deputado Klautau, em 1990 (vide “A Província do Pará”, de 18 e 24 de janeiro de 1990 e “Diário do Pará”, de 19 e 21 de janeiro de 1990), recebeu um equivocado parecer da professora Violeta Refkalefsky Loureiro, então Diretora Geral do IDESP, no qual confundiu o papel de uma FAP com o de uma Secretaria de Ciência Tecnologia. Esse parecer foi recebido pelo Deputado Mário Chermont, no dia 20 de fevereiro de 1990. Em vista disso, o projeto do Deputado Klautau foi arquivado. Em 24 de outubro de 1991, o Deputado Edmilson Rodrigues apresentou um novo projeto para a criação da FAPESPA que, contudo, foi novamente arquivado, o mesmo acontecendo com o projeto (idêntico ao do Deputado Klautau) do Deputado Raimundo Santos, de 19 de fevereiro de 1992. Em 24 de março de 1995, o Deputado Luis Araújo solicitou o desarquivamento desses projetos, solicitação essa que foi deferida em 24 de abril de 1995. Como até o momento não houve a criação da FAPESPA, certamente a proposta do Deputado Araújo recebeu um “embargo de gaveta”. Espero que o nosso Governador Simão Jatene, se tomar conhecimento desse “dossiê” (que me foi entregue pelo Klautau), crie a FAPESPA para seguir o que o matemático, filósofo e lingüísta polonês Jacob Bronowski (1908-1979) recomenda em seu livro O Olho Visionário: Ensaios sobre Arte, Literatura e Ciência (Editora UnB, 1998, p. 81): Sem uma visão científica, a arte de governar o Estado e até mesmo a cidadania, passa a ser, como a má arquitetura, uma mera decoração: a aquiescência. Creio ser oportuno dizer que a criação da FAPESPA é o passo inicial para desenvolver o Pará. O passo seguinte deve ser dado com a criação do ICTA, referido em pergunta anterior.
8- O sr. vai assumir a condição de aposentado ou vai se dedicar a algum projeto em especial?
R. Conforme descrevi em meu artigo Agora, apenas um filofísico (disponível no
site: www.bassalo.com.br/memorias/pesquisa),
vou continuar fazendo o que sempre fiz, apenas com a diferença de não ter mais
alunos obrigatórios. Por exemplo, no momento, eu continuo a escrever o Folclore
da Física para o site www.searadaciencia.ufc.br
e, neste ano de 2006, se Deus assim o permitir, terminarei o livro Nascimentos
da Física: 1971-2000 e começarei a escrever um outro livro, em colaboração com
os professores Mauro Sérgio Dorsa Cattani e Antônio Boulhosa Nassar, tratando
de Tópicos de Eletrodinâmica Quântica. Paralelamente, trabalharei, junto com
a minha mulher Célia, com familiares e mais alguns amigos, na elaboração da
Fundação Minerva destinada a promover a Ciência, Tecnologia e Arte, assim como
publicar livros, como o que acabamos de fazer: Sapos e Estrelas, de meu sogro
Machado Coelho, reunindo crônicas que ele escreveu para “A Província do Pará”,
entre fevereiro de 1952 e outubro de 1953. Também pretendo desenvolver nessa
minha aposentadoria, juntamente com meu analista e amigo, o Dr. José Paulo de
Oliveira Filho, uma pesquisa sobre o papel dos dois enantiômeros (levógiro e
destrógiro) da Adrenalina, no desenvolvimento das doenças e em suas respectivas
curas.
9- O que o sr. acha do sistema de cotas adotado pela UFPA no Processo Seletivo Seriado?
R. Meramente “paternalista”. As minorias raciais não precisam desse tipo de ajuda. Elas precisam, sim, de condições sociais e econômicas para competir, em nível de igualdade, com os demais segmentos da sociedade. Contudo, como essas condições estão demorando muito, os governantes atuam como “pais” para poder conseguir obediência (votos?) de seus “filhos”. Espero que os formados por esse sistema de cotas não sejam ainda mais discriminados quando procurarem empregos.
10- Faça um resumo do seu currículo para a abertura desta entrevista.
R. Nasci em Belém do Pará, em 10 de setembro de 1935. Em 1958, formei-me em Engenharia Civil pela antiga Escola de Engenharia do Pará; em 1965, recebi o título de Bacharel em Física pela Universidade de Brasília; em 1973 e 1975, respectivamente, obtive os títulos de Mestre em Física e Doutor em Física, pela Universidade de São Paulo. Em 1961, ingressei como Instrutor de Ensino no então Núcleo de Física e Matemática da UFPA; em 1978 e 1989, tornei-me, por intermédio de Concursos, Interno e Público, respectivamente, Professor Adjunto e Professor Titular do Departamento de Física da UFPA. Neste Departamento, desenvolvi trabalhos de ensino, pesquisa e divulgação da Física, com o seguinte resultado: 24 Disciplinas de Graduação; 8 Disciplinas de Extensão; 14 Disciplinas de Pós-Graduação (lato e stricto sensu); 10 Teses de Mestrado orientadas e/ou co-orientadas; 29 Trabalhos de Conclusão de Curso orientados; 39 trabalhos científicos publicados no Brasil e no exterior; 178 trabalhos sobre a História da Física divulgados em revistas nacionais e internacionais; 171 palestras, conferências, seminários e mini-cursos proferidos em várias instituições de ensino publicado e privado no Brasil; escrevi 24 artigos para Capítulos de livros; Parecerista ad hoc do Caderno Brasileiro de Ensino de Física; Verbetes no Who´s Who in World (1999, 2000); Who´s Who in Science and Engineering (2000-2001); Outsanding People of the 20th Century (1999); Membro do Colégio de Consultores da COLEÇÃO MEMÓRIA DO SABER, do CNPq; Membro Titular da Academia Roraimense de Ciências; Membro Ativo da Academia de Ciências de New York; Membro das seguintes Sociedades Científicas: Sociedade Brasileira de Física, Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Sociedade Brasileira de História da Ciência (fundador) e Sociedade Portuguesa de Física; escrevi 166 artigos nos seguintes jornais: O Liberal, A Província do Pará, Diário do Pará e Jornal Pessoal, de Belém; Jornal da Ciência, do Rio de Janeiro; o Estado de São Paulo, de São Paulo. Sou autor dos seguintes livros (editados pela UFPA): Introdução à Mecânica dos Meios Contínuos (1973); Aspectos Contemporâneos da Física (2000), com Antônio Boulhosa Nassar e Mauro Sérgio Dorsa Cattani; Tópicos da Mecânica Quântica de de Broglie-Bohm (2003), com Antônio Boulhosa Nassar, Mauro Sérgio Dorsa Cattani e Paulo de Tarso Santos Alencar; Teoria de Grupo e Algumas Aplicações em Física (2005), com Mauro Sérgio Dorsa Cattani; Crônicas da Física: Tomos 1 (1987); 2 (1990); 3 (1992); 4 (1994); 5 (1998); 6 (2002); Nascimentos da Física (3.500 a. C. – 1900 A. D.) (1996); Nascimentos da Física (1901-1950) (2000); Nascimentos da Física (1951-1970) (2005). Para detalhes desse resumo curricular, ver este site.
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1. Entrevista concedida ao jornalista Walter Pinto do Jornal Beira do Rio (UFPA, Belém, PA), publicada no Número 36, de janeiro de 2006. Essa entrevista foi republicada na edição eletrônica do Jornal da Ciência (Rio de Janeiro), no dia 8 de fevereiro de 2006.