FAMÍLIA

A. MINHA VIDA DE SOLTEIRO:1935-1962

Nesta primeira parte, vou registrar algumas recordações colhidas no “chão” de minha infância e de minha adolescência, desde meu nascimento, em Belém do Pará, na Maternidade da Ordem Terceira de São Francisco, sob os cuidados do Dr. Waldemar de Freitas Ribeiro, no dia 10 de setembro de 1935, às 12h, meia hora antes do nascimento de minha irmã Maria José, até meu casamento, no dia 06 de outubro de 1962, com Célia Mártires Coelho. Além da Maria, tenho os irmãos Antônio e Mário. Minha irmã Madalena e meu irmão Luiz, o “Corumbá”, este por parte de pai, já faleceram. Mais adiante, falarei de cada um deles, assim como de meus tios e primos.

Meus pais e suas origens

Meu pai Eládio nasceu no dia 13 de junho de 1897, em uma aldeia espanhola chamada Puebles de Tribes, San Miguel de Vidueira, na província de Orense, no Caminho de Santiago de Compostela, no noroeste da Espanha. Chegou a Belém do Pará em 1912 (ano em que os adversários de Antônio Lemos queimaram, no dia 28 de agosto, seu jornal A Província do Pará), em companhia de sua mãe Tereza (nascida em 1867, falecida no dia 04 de novembro de 1952, e cujo pai se chamava Alonzo Bassalo) e de sua irmã Lúcia. Mais tarde, chegou sua irmã Luzia, nascida no dia 30 de setembro de 1913. Meu pai morreu no dia 20 de abril de 1980, e a tia Luzia, no dia 17 de setembro de 1983. Os vizinhos chamavam o papai de Seu Hilário.

Minha mãe Rosa nasceu no dia 08 de março de 1900, numa aldeia italiana de nome Castelluccio Inferiore, na Província de Potenza, a cerca de 500 km de Roma, no centro sul da Itália. A família de minha mãe, os Filardi (o), é originária da Grécia. Em 1400, instalou-se na ilha de Rodes. Devido à invasão dos turcos em Altamura (Bari), um de seus ramos transferiu-se para Bolonha, inscreveu-se na Nobreza, e tornou-se proprietário de vários feudos em Castelluccio. Desses Filardi, alguns foram religiosos, todos Monsenhores. Por exemplo, Ennio foi Bispo de Ascoli, em 1536, sob o Papado de Paulo III; Mário foi Arcebispo de Avignon, na França, em 1624, sob o Papado de Urbano VIII (amigo de Galileu Galilei); Massenzio foi Bispo de Martirano (Catanzaro), em 1650, sob o Papado de Innocêncio X. Por outro lado, um dos Filardi, Antonio, foi Oficial de Fronteira, e foi preso na Guerra de 1810-1814, entre a França de Napoleão I e a Itália. Apesar dessas raízes, meus avós maternos, Paulo e Madalena, eram camponeses. Minha mãe morreu no dia 28 de agosto de 1999.

A casa onde vivi

A convite de sua tia materna Maria, casada com Francisco Libonati, meu padrinho de batismo, dono de uma fábrica de calçados, mamãe veio para nossa cidade em 1924, para morar com ela e com seu irmão José, que já se encontrava em Belém, trabalhando como sapateiro na fábrica de seu tio, com papai, também sapateiro dessa mesma fábrica. Casaram-se em 1926 e foram morar na Travessa São Pedro, número 19 (depois 421 e, hoje, 851), no Bairro do Jurunas, cuja quadra compreendia as transversais Avenida Conselheiro Furtado (por onde passava o bonde, assim como as linhas de ônibus Circular Interna e Circular Externa) e Rua Arcipreste Manoel Teodoro, e paralela à Avenida Padre Eutíquio, antiga Travessa São Mateus.

Localizada em um terreno de 14 21 metros, inicialmente nossa casa, recuada em relação ao muro da frente e construída colada ao lado direito do terreno (de quem olha de dentro do terreno para a rua), tinha uma sala, onde o papai trabalhava (depois que a fábrica do Libonati, localizada na esquina da Arcipreste com a São Mateus, pegou fogo, papai começou a trabalhar em casa), dois quartos e uma cozinha que davam para uma varanda. Apenas a sala era forrada. As paredes da casa eram de enchimento e o telhado era de telha cerâmica. Os pisos eram de madeira escura corrida (provavelmente de maçaranduba), sendo que a sala era de acapu e pau-amarelo. A cozinha era de cimento liso. Mais tarde, meu pai construiu, ao lado dessa varanda, uma cozinha, e ao lado desta, a sua ``nova’’ sapataria. Esses dois compartimentos eram de madeira. O banheiro e o sanitário, também de madeira, ficavam fora do corpo da casa, no limite do lado esquerdo do terreno.

Nessa "nova" sapataria do papai, ajudei-o muito, fazendo a famosa ``cola de sapateiro’’, engraxando sapatos e costurando, com a sovela, as solas (``meia’’, que ia dos dedos a metade do pé, e ``inteira’’ que cobria o pé inteiro) de sapatos que o papai recebia para consertar. Essa ``cola’’ era feita da seguinte maneira: as sobras do solado conhecido como ``crepe-sola’’, que era de borracha, eram cortadas e colocadas em uma lata com gasolina para amolecê-las. Depois de um certo período de ``fusão``, eu, então, usava um pedaço de pau para transformá-la em uma pasta. Essa ``cola’’ era usada para vários estágios do conserto de um sapato. Um deles, por exemplo, era para fechar uma abertura feita na lateral do solado para esconder a costura (de fio encerado), que prendia a sola ao couro do sapato. Os buracos dessa costura eram feitos pela sovela, que era um espigão de ferro, pontiagudo, com um cabo de madeira para permitir seu manuseio. Aliás, ao contar essa história da “cola” para os filhos de meus cunhados, um deles, o Antônio Guilherme (“Gaéga”), filho da Rosa Maria e do Pedro Pinho de Assis, me disse: - Quer dizer, titio, que o senhor foi um ‘cheira-cola´ quando criança?.

Mais tarde, por volta de 1951, para abrigar meu irmão Antônio, sua mulher Judite, e mais os filhos Antônio, Rosângela, Paulo, Fernando, Roberto, Guilherme, Rosineide e Rosana, o papai construiu, entre o banheiro-sanitário e sua sapataria, uma pequena casa, composta de uma sala e dois quartos, ainda de madeira. Quando não morava mais em casa, o Antônio adotou um filho de nome André.

Os móveis de nossa casa eram os mais simples possíveis. No quarto do papai, havia uma cama de casal, um guarda-roupa e uma penteadeira. No segundo quarto, onde moravam minha avó Tereza e minha tia Luzia, tinha uma cama de solteiro e uma cômoda. Como não existiam camas suficientes, minha tia e minhas irmãs, Madalena e Maria, dormiam em rede. Aliás, também em rede e na sala, dormíamos eu, Antônio e Mário. Às vezes, dormia também em uma rede na sala o Corumbá, que morava com sua mãe. Todos esses móveis eram, me parece, de macacaúba, feitos pelo Seu Sidoca. Mais tarde, quando a Madalena começou a trabalhar, em 1951, como professora no Grupo Escolar “Placídia Cardoso”, que ficava na Rua Tamoios, depois da Travessa do Jurunas, papai fez a sua sapataria e ela, então, adquiriu uma mobília para a sala, composta de quatro cadeiras, um sofá, duas poltronas, duas colunas e uma mesa de centro, todos de macacaúba, comprados na Movelaria Kislanov, que ficava na Padre Eutíquio, defronte à Rua Carlos Gomes.

(Aliás, lembro-me de que, quando estudava nessa mesa de centro, entre final de 1953 e fevereiro de 1954, para o Vestibular da Escola de Engenharia, fascinou-me saber que a fórmula de resolução das equações algébricas de segundo grau chamava-se fórmula de Bhaskara, segundo alertou-me meu colega do Terceiro Científico do CEPC, o Adriano Marçal Nogueira. Também nesse estudo deparei-me, tratando com Geometria, que havia nomes de outros matemáticos, além de Pitágoras e de Tales, que também contribuíram para a evolução da Geometria: Viète. Talvez esteja aí a gênese de meu interesse pela História da Matemática e da Física, quando, no início da década de 1970, ministrei o primeiro Curso de Desenvolvimento da Física, no Departamento de Física da UFPA. Falarei mais sobre isso, quando tratar de minha vida acadêmica.)

Na cozinha existia uma mesa e bancos corridos, de madeira tosca. O fogão era à lenha, com quatro bocas, cuja fumaça era tirada por uma chaminé. (O primeiro fogão a querosene, marca Jacaré, foi comprado por mim quando comecei a trabalhar no extinto DMER, cujo significado darei mais adiante.) A lenha era comprada na Estância Monte-Alegre, que se situava na então Estrada Nova (hoje, Bernardo Sayão). Vi, inúmeras vezes, meu pai cortando lenha, em frente à cozinha, assim como cansei de telefonar, na Mercearia e Padaria Fortaleza do Humaitá, que ficava na esquina da São Pedro com a Arcipreste, para aquela Estância pedindo lenha, pois demoravam a entregá-la, e ela vinha em um caminhão velho.

O quintal tinha muitas árvores frutíferas, tais como: abacateiro, goiabeira (em cujos galhos comi, muitas vezes, a sobremesa do almoço: saborosas e verdoengas goiabas), abiozeiro, bananeira, cupuaçuzeiro, jambeiro, cacaueiro, e um cacto de jamaracaru, de cujo caule a mamãe fazia xarope para gripe. Lembro-me, por várias vezes, de acordar o papai de madrugada para enxotar uma coruja que, nos galhos do abacateiro, tocava a sua ``música fúnebre’’ (batida de seus bicos nos galhos) a qual, segundo a crença popular, tal ``música’’ indicava que haveria morte na família, já que a mesma simbolizava o toque do martelo em pregos fechando um caixão de defunto. Para espantar a coruja, o papai tocava fogo em jornais velhos e, com essa precária iluminação, conseguia ver onde ela se encontrava. Lançando pedras nela, fazia-a voar e deixar o abacateiro. No seu vôo, ela piava como se estivesse rasgando pano, o pano que envolve os mortos: a mortalha. Daí ela ser também conhecida como ``rasga mortalha’’.

Ainda em nosso quintal, existia um grande coradouro de zinco, perto de uma tina (metade de uma barrica de vinho, que meu pai comprava na tanoaria do Sr. Américo, que ficava na Arcipreste, próximo da Travessa Tupinambás) com torneira (defronte da goiabeira), onde a mamãe lavava e secava as nossas roupas e as de suas clientes, pois, para auxiliar a renda doméstica da casa, lavava roupa para fora. Neste quintal, eu, Antônio e Mário jogávamos ``peladas’’ com bola de meia (uma velha meia de sapato enchida com papel), para desespero de nossa mãe, pois a bola caía sempre no coradouro e sujava a roupa que lá estava estendida. Nesse improvisado campo de ``pelada’’, uma das traves era a goiabeira e a esquina da casa, e a outra eram as duas colunas do muro da frente, entre o portão de entrada e o muro lateral direito do terreno. Entrávamos na casa por uma escada com cerca de três degraus, e seguíamos por uma passarela de cimento até a porta de entrada da sala. Nosso terreno era mais alto que o leito da rua, que era de chão batido, cheio de capim, com os postes de luz (da Pará Electric) em seu centro, onde também jogávamos ``peladas’’. Essa casa foi depois demolida e construída outra de dois andares pelo meu cunhado Pedro Rosário Crispino, casado com a Maria. Hoje, ela não pertence mais a ele, já que foi vendida.

Com relação à atividade de minha mãe como lavadeira, lembro-me de um incidente que quase me matou. Na época da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), faltavam vários alimentos comestíveis, principalmente, açúcar e trigo. Assim, o pão era escasso e tínhamos de fazer fila para comprá-lo na Padaria Onça, que ficava na Arcipreste, perto do ``Largo de Engomar’’ (que recebeu esse apelido por apresentar a forma de um triângulo), na intercessão da Arcipreste com a rua Veiga Cabral, a atual Praça Coaracy Nunes. Aliás, nessa praça, joguei muita ``pelada’’ com meus amigos de infância. Um dia, depois de entregar as roupas lavadas, envoltas em um pano, na casa das Professoras Zilda Garcia, Palmyra Amorim e Maria Luiza Barros que moravam na Arcipreste, entre a São Pedro e a Padre Eutíquio, encaminhei-me para comprar pão naquela padaria, com o pano que ficara liberado depois da entrega, envolto no pescoço. Enquanto aguardava na fila para comprar o pão, brincava com amigos. Um deles apertou o pano em meu pescoço, quase me afogando. Enquanto ouvia gritos para encontrar uma tesoura para cortar o pano, eu consegui, no desespero, afrouxar o laço e me salvar. Ao chegar em casa, não contei para ninguém o que acontecera. Contudo, fui para o canto direito do quintal, perto da rua, fazer massagens em meu pescoço que ainda doía. Ufa!, escapei da morte, dizia eu para mim mesmo.

Ainda com relação à escassez de certos alimentos em conseqüência da Segunda Guerra Mundial, relato mais alguns fatos marcantes em minha vida. A falta de carne me obrigava a enfrentar filas no Mercado Batista Campos (hoje, demolido), localizado na esquina das Avenidas Padre Eutíquio e Conselheiro Furtado. Para eu conseguir um bom lugar na fila da carne, tinha que dormir na porta desse Mercado, pois a carne disponível para a venda era menor do que a demanda. Na falta de açúcar, usávamos açúcar moreno, ou rapadura, ou então triturávamos as ``bolas de Cuba’’, que eram esferas (com cerca de 3 cm de diâmetro) feitas de açúcar moreno. Por outro lado, a mesma dificuldade para comprar carne também existia para a compra de peixe. Em vista disso, foram idealizados Cartões de Racionamento, um para peixe e um para carne. Às vezes, era possível comprar carne com o cartão de peixe, como aconteceu comigo.

O contato que tive com a morte, narrado anteriormente, não foi o primeiro que aconteceu na minha vida. Antes, quando eu tinha dois ou três anos de idade, lembro-me de haver acordado e ver minha mãe preocupada comigo, pois passara a noite toda anterior passando azeite (de andiroba, provavelmente!) no meu ventre que havia inchado bastante. A preocupação da mamãe com a minha saúde certamente decorria de comentários que a vizinhança fazia ao me ver franzino, como recém-nascido, em seu colo: - Dona Rosa, será que o Zé Maria vingará? Essa pergunta certamente penetrou em meu subconsciente, já que a idéia de morte sempre me acompanhou durante a minha vida, depois de um incidente que aconteceu comigo quando tinha onze anos de idade, do qual falarei mais adiante.

Apesar das dificuldades financeiras de meus pais, nunca passamos fome. Contudo, para compensar a falta de alimentação apropriada para um crescimento saudável, minha mãe fazia um ``caribé’’ (basicamente, um mingau ralo de farinha d’água) que nos servia no final da madrugada. Por outro lado, aquelas dificuldades não impediram que tivéssemos cuidados de médicos particulares ao nascermos (o Doutor Agostinho Monteiro aparou o Antônio e a Madá, o Dr. Waldemar Ribeiro, os demais); estudamos (eu e meus quatro irmãos) o então Curso Primário em uma Escola Particular, do Professor Raymundo Firmiano Lobo, que se localizava no Largo da Trindade, e da qual também falei em outro artigo dessas minhas lembranças.

Por ser italiana, minha mãe Rosa manteve no Brasil alguns hábitos de sua terra natal. Por exemplo, aos domingos comíamos uma macarronada, feita por ela, com farinha de trigo e ovos, com porpetas (bolos de farinha de pão misturada com ovos, que chamávamos de ``bolinhas’’), mais saborosas na segunda-feira, que serviam, inclusive, como merenda na Escola Primária, a braciola, um enrolado de massa de farinha de pão, misturada com ovo, e revestida de carne, que chamávamos de ``brajola’’ (aliás, somente em 1965, quando estudava na Universidade de Brasília, meu colega Mário Novello, filho de italianos, ensinou-me o nome certo desse “quitute” feito pela minha mãe), e mais o molho de massa de tomate. Os ingredientes dessa macarronada eram comprados na Mercearia Bela, na esquina da Arcipreste com a Padre Eutíquio, de propriedade de Francisco e Luiza Pinto, pais dos saudosos Orlando Pinto (mais tarde, um conceituado médico de Belém) e de Orlandina, que viria a ser, posteriormente, esposa do engenheiro civil Alírio César de Oliveira, meu professor no Colégio Estadual “Paes de Carvalho” (CEPC), na Escola de Engenharia do Pará (EEP) e meu chefe no hoje extinto Departamento Municipal de Estradas de Rodagem (DMER). O Dr. Alírio e sua mulher Orlandina faleceram, respectivamente, em 14 de fevereiro de 2005 e 23 de janeiro de 2000.

Nas festas tradicionais, como Páscoa, Círio e Natal, comíamos uma galinha que era assada geralmente no forno da Fortaleza do Humaitá. Às vezes, a galinha era também assada na Padaria Onça. Lembro-me bem, pois era eu que ia buscar esse verdadeiro ``petisco’’, cuja identificação era feita com uma pequena etiqueta de chapa de flandre. Geralmente essa galinha era acompanhada de vinho tinto, comprado na Fortaleza, e tão bem apreciado por minha tia Luzia. É oportuno dizer que esse vinho era engarrafado, às vezes, com a minha ajuda, de uma barrica de 200 litros, e depois selados, com várias marcas, como, por exemplo, Constantino, Gaúcho, Sultão, Trentino, Tropeiro, dentre outras. Ao lado dessa Padaria, cujos donos foram o Seu Mendes, o seu José, o Seu Aires e o Seu Rodrigues, tinha um anexo onde funcionava a Barbearia do Seu Souza. Quando este se mudou para a Conselheiro próximo da São Mateus, esse anexo transformou-se no depósito dessa Padaria.

Na época do Natal, além da macarronada, comíamos crispeda e rose catarra, feitos também de trigo e ovos. A crispeda era comprida, em forma de charuto, e a rose catarra tinha a forma de uma flor. (Registro que esses nomes me foram ensinados, muito mais tarde, pelo meu cunhado Pedro Rosário Crispino, também filho de italianos, e conhecedor da língua italiana.) Essas duas iguarias eram feitas por minha mãe na véspera do Natal. Lembro-me de que, ao acordar, no dia 24 de dezembro, quase sempre chovendo, corria para a cozinha para comê-los. Também ganhávamos presentes de Natal. Nunca bicicleta Phylipps, pneu balão, e nem patinetes, por razões óbvias. (Recordo que somente alguns anos depois aprendi a andar de bicicleta, usando a de um colega do Mário, o saudoso Dr. Sebastião Pontes, o ``Sabito’’, que ia estudar em casa.) Os homens ganhavam carrinhos feitos de madeira e as mulheres, bonecas. É oportuno registrar um fato curioso. Como a rua São Pedro era cheia de capim, num certo ano rezei ao Papai-Noel, para ganhar um caminhão de limpeza com ancinhos, enxadas e pás, tudo de brinquedo, para ``limpar’’ a nossa rua. Como não falei a ninguém desse desejo, é claro que meu pai (Noel) Eládio não me deu esse presente. Não sei se foi a partir desse fato que deixei de acreditar no Santa Claus, como uma entidade mundial que trazia presentes em seu trenó, vindo da Lapônia.

Os vizinhos: 1

Agora, registrarei algumas de minhas lembranças de nossos vizinhos próximos e mais afastados de casa, e a amizade com seus filhos. No lado direito de nossa casa e limítrofe, numa casa que tinha um grande quintal na frente com sapotilheiras e um pé de laranja-da-terra, muito amarga, morava a família Sampaio: Seu Waldemar e Dona Altina, com os filhos Rubens, Ruth, Ruidemir, Rosineide, Rosemary, Ruivilar, Ruiantônio e Rui. Seu Waldemar trabalhava no Moinho Paulistano, situado na Cidade Velha, e Dona Altina era doméstica. Mais tarde, moraram nessa casa a família Pinho: Seu José e a Dona Glória Pinho, que tinham cinco filhos: “Biloca”, Ismael, Eunice, Mário e Fernando. Seu José era açougueiro no Mercado de Carne, no Ver-o-Peso. Em certa época de nossa vida, comprávamos carne com o Seu José. Lembro-me de um fato curioso sobre essa compra. Aos domingos, eu ia com o Fernando fazer essa compra. Junto com a carne, comprava, também, um exemplar da Folha do Norte, um jornal de propriedade do jornalista Paulo Maranhão, avô de meu saudoso amigo Haroldo Maranhão. Pois bem, no dia 28 de setembro de 1952, domingo, quando voltávamos do Mercado de Carne, vindo a pé pela Travessa São Pedro, e pitando cigarros Continental (sem filtro), que eu tirava escondido de meu irmão Antônio, li, com tristeza a morte do grande cantor Francisco Alves, em decorrência de um acidente de carro na estrada Rio-São Paulo, ocorrido no dia anterior.

Continuemos lembrando os vizinhos do quarteirão da São Pedro onde morávamos. Em frente de casa, tivemos, primeiro, a família Prado, o pai Custódio, que era agente do Lloyd Brasileiro, e a mãe Alice, e os filhos Carlos, Celina e Carmen; esta, a mais nova, casou depois com o radialista e hoje publicitário José Sarraf Maia. Muito mais tarde, fui colega do Carlos na UFPA, quando ele dirigiu a parte Administrativa, na gestão do Reitor Aracy Barreto. Era uma casa de madeira, que tinha em seu quintal algumas árvores frutíferas, inclusive o cutite, um fruto de polpa e casca amarela, muito gorduroso, e com caroço, que eu comia e apreciava bastante. Essa casa foi depois vendida para o Dr. Durval Nóvoa, que a derrubou e fez um ``bangalô’’ de tijolo e concreto. Ele era advogado e casado com Dona Nancy e tiveram sete filhos: Albanilze (Alba), Altino (hoje médico), Leonício Otávio (hoje dentista), Fátima, Maria das Graças, Ruth e Durval. Aliás, lembro-me de um fato curioso. Quando o Antônio saiu de casa para morar com a Judite, em 1948, ele mandou um bilhete para a mamãe falando dessa sua decisão. Quando a mamãe leu o bilhete, na hora do almoço, começamos a chorar pela perda do filho e irmão. Como a vovó Tereza (ela já estava cega) não chorou, a Alba, muito pequena e que sempre almoçava com a gente, jogou uma colher nela em represália por não compartilhar com a nossa dor. A pureza da criança é fantástica!

No lado esquerdo da casa dos Prados, morava a família Cruz: Seu Camilo e Dona Elvira, que tinham três filhos: Fernando (que morreu cedo), o saudoso Júlio (um respeitado médico ortopedista e, por muito tempo, médico do Clube do Remo, seu clube de futebol do coração, e meu, também), Isaura e Maria Flávia (já falecidas). Isaura casou com o Francisco Martins, que viria a ser, anos depois, meu colega no DMER. Depois a família Cruz mudou-se para a Travessa 7 de Setembro, nos altos da Fábrica União, local onde trabalhava o seu Camilo. Foi nessa casa onde ocorreu um pequeno incidente e que mostrou o apreço que a Família Cruz tinha por nós. Um belo dia, eu e Maria fomos passar o dia nessa casa. Numa de nossas brincadeiras, quebramos um vaso de estimação da Isaura. Entramos em pânico e começamos a chorar. Aí, então, a Isaura veio em nosso socorro, limpou os cacos, pediu para pararmos de chorar e nos deu deliciosos biscoitos (feitos na própria Fábrica União) para comermos com guaraná, certamente da marca Simões ou Soberano, que eram as que existiam nessa época.

Depois que a Família Cruz se mudou, veio morar na casa o Seu Heraldo Gonçalves e Dona Ainda, que criavam o sobrinho e afilhado Rodrigo, com quem eu brincava. Este era bastante generoso, pois permitia que brincasse com os seus brinquedos, além de ter acesso às promoções da Rádio Clube, fundada em 22 de abril de 1928 pelos radialistas Edgar Proença, Roberto Camelier e Eriberto Pio dos Santos, cujos estúdios localizavam-se na Travessa Jurunas (hoje, Roberto Camelier) com a Rua Conceição (hoje, Governador Fernando Guilhon), e conhecidos como “Aldeia do Rádio”. Lembro-me de uma promoção da pasta dentifrícia Colgate e dos sabonetes Palmolive, que patrocinavam nessa Rádio, respectivamente, as Aventuras do Tarzan e do Zorro. Quem comprasse um determinado número desses materiais de uso pessoal e guardasse os invólucros poderia trocá-los por uma miniatura de faca que o Tarzan usava ou um boton do Zorro. Como não usávamos sabonete (usávamos o mesmo sabão, em barra, talvez Borboleta, que minha mãe lavava roupa) e raramente pasta dentifrícia, tive acesso a esses brindes por generosidade do Rodrigo. Eles moraram pouco tempo na São Pedro e logo se mudaram para a Rua dos Tamoios, próximo da Travessa Jurunas, onde joguei muita bola, pois havia um grande quintal na lateral direita da casa.

As Rádios Clube e Marajoara

Por falar na Rádio Clube, a famosa PRC-5 – A Voz que Fala e Canta para a Planície, “slogan” inventado por Edgar Proença, quero anotar um fato interessante. Todas as quintas-feiras, 11 horas da manhã, essa Rádio tinha um programa denominado Coquetel de Ritmos, do qual eu participava como platéia. Era um programa de variedades, com cantores regionais (como o conjunto Os Namorados Tropicais, composto por Zé Maria, Tácito Cantuária, Verbeno Costa, Mário Guerreiro e Jorge), apresentação de seus famosos rádio-atores e perguntas que valiam brindes a quem respondesse certo. Um determinado dia, a pergunta foi a seguinte: - Quem de oito tira quatro e ainda fica oito? Como sempre gostei de números, levantei-me e respondi: “Biscoito”. Ganhei uma bela camisa! Na apresentação dos rádio-atores, tive oportunidade de ver, ao vivo, vários deles. Por exemplo, a Amerina Teixeira, o Acácio Humberto, o Mário Herculano, o Otávio Cascaes e o Mário Amoedo. Muitos anos depois, tive oportunidade de conviver com dois deles, Otávio Cascaes e o Acácio Humberto. Devo registrar que foi o Dr. Otávio Bandeira Cascaes que, quando Prefeito de Belém, me colocou à disposição da UFPA, quando eu era engenheiro do DMER. O Dr. Acácio Humberto tornou-se meu grande amigo quando fazíamos parte do Conselho Superior de Ensino e Pesquisa da UFPA (CONSEP/UFPA).

De outra feita, ganhei discos de vinil (78 rotações), ao participar também de programas de perguntas e respostas. Um deles foi numa promoção ambulante, uma espécie de “trio elétrico”, o famoso Show Vigorelli (conforme me lembrou meu concunhado Cláudio Cativo Rosa), que passava pela Avenida 15 de Agosto (a Avenida Presidente Vargas de hoje). O outro, foi no programa A Cavalgada da Alegria, que tinha uma seqüência sobre perguntas e respostas, com a participação do público, e que se realizava no auditório da Rádio Marajoara, localizada no Largo de Nazaré, onde ficava o famoso cassino Rancho Grande. Essa Rádio, a ZYE-20, teve sua primeira transmissão realizada no dia 07 de setembro de 1953, na voz do jornalista, antropólogo e crítico de arte Frederico Barata, representante dos Diários Associados, em Belém, e que viria a conhecer, na casa de meu sogro Machado Coelho, em 1957. Aliás, foi nessa Rádio que dei a minha primeira entrevista (as perguntas foram feitas previamente e para respondê-las pedi ajuda de meu irmão Antônio) para o Pedro Galvão (hoje, dono da Agência Galvão de Publicidade), então meu aluno no CEPC e que participava do programa estudantil, o Antena Estudantil, comandado pelo professor Gelmirez Melo e Silva.

Os vizinhos: 2

Voltemos aos nossos vizinhos. Em substituição à família do Seu Heraldo, veio a Família Pantoja: Antônio e Graciosa. O Pantoja, como o chamávamos, era jornalista; na adolescência morara no Rio de Janeiro e fora, inclusive, goleiro do time juvenil do Botafogo Futebol e Regatas. Com o Pantoja, eu e o Fernando Carneiro, também nosso vizinho, jogamos muito “botão”. Aliás, anos mais tarde fui profissional desse jogo, denominado então celotex, conforme me reportarei mais adiante. O Fernando era

filho do major João Carneiro, cirurgião dentista, e sua mãe se chamava Eurídice. Ele tinha os seguintes irmãos: Ana Maria (hoje, funcionária aposentada da UFPA), José, Maria Emília, Nazaré e Nazarena. A Nazaré casou-se com Cleto Moura, um dos cartorários mais conceituados em Belém.

Os Carneiros moravam quase ao lado de nossa casa, na direção da Conselheiro Furtado, numa casa que fora construída em uma parte do terreno de propriedade da família Amor Divino. Desse modo, essa residência situava-se entre um grande barracão, junto a nossa casa, e um terreno amplo que fazia esquina com a Conselheiro Furtado, onde, nesta Avenida, ficava a entrada principal da casa dos Amor Divino: Dona Laura e Seu Manoel, e seus filhos: Almerindo, Waldemar, Mário e Fernando. Além desses filhos, eles adotaram mais dois: Raimunda e Alfredo. Naquele terreno, brinquei muita bola e, em um certo dia, quase tive um acidente de grandes proporções. O Waldemar criava uma cabra que conduzia uma pequena carroça. Eu, mais a Raimunda e o Alfredo, andávamos nessa carroça. Nesse dia, a cabra resolveu testar a sua capacidade de corrida e disparou contra a cerca que limitava o terreno. Por sorte, o Waldemar conseguiu conter a corrida e paramos em frente da cerca. Ufa!, menos um problema para meus pais. Seu Manoel era empreiteiro de obras e guardava materiais de construção no grande barracão referido acima.

Na casa deles, além de brincar no quintal, quase todas as noites ia jogar “sueca”, um jogo de baralhos de cuja regra não mais me recordo, do qual participava a Dona Laura, seus filhos (inclusive os adotivos), e o Seu Miguel, da família Figueiredo, que morava na Arcipreste. Mais tarde, esse terreno foi vendido e nele foram construídos dois “bangalôs”. No da esquina, morava o Doutor Benedito Coelho de Souza, sua mulher Mercedes e a sua filha Maria José. No outro, o filho Benedito (conhecido como “Pão Lulu” e com quem também joguei muito “botão”, juntamente com o Antônio Resende, que morava defronte) e sua mulher Carlinda, ambos já falecidos.

Depois que os Carneiros se mudaram para a Arcipreste, primeiro para uma casa no quarteirão entre São Pedro e São Matheus (hoje, Avenida Padre Eutíquio) e depois para junto da Padaria Onça, a casa onde moravam foi alugada para a Dona Laura Farache, com suas duas filhas: Célia e Maria Eugênia, conhecida como ``Maruja’’, e que estudava no Colégio Santa Rosa. Como eu ensinava Matemática para a ``Maruja’’, recebia um tratamento carinhoso por parte dela e de sua mãe. Lembro-me bem do ``ovo estrelado`` que ela preparava para mim, cujo cheiro da ``manteiga Real’’, na qual ``nadava’’ o ovo, era bastante convidativo. Em casa, essa manteiga era apenas um substantivo abstrato. A Célia é mãe do Paulo Leite, hoje ator de cinema, teatro e televisão, no sul do país. A ``Maruja’’ é hoje professora aposentada do Núcleo Pedagógico Integrado (NPI), da UFPA.

Ainda no quarteirão de nossa casa, tivemos outros vizinhos. No lado direito da casa dos Prados, morava a família da Dejacir que, mais tarde, casou com o Dr. Pedro Valinoto, psiquiatra, muito amigo de minha tia Luzia, e meu primeiro médico, dos muitos que tive para lidar com a minha hipocondria neurótica, da qual falarei mais adiante. Depois veio a família Bemerguy, Seu Abraão e Dona Messody, com os filhos Isaac, Elias, Maú, Simol e Rica. Isaac casou com a Dona Luz e tiveram vários filhos, dentre eles, o Moisés, que foi meu aluno de Matemática, por volta de 1949, ocasião em que estudou Português com a minha irmã Madalena, a saudosa Madá. Anos mais tarde, em 1967, o Moisés voltaria a ser meu aluno, desta vez na EEP, na disciplina Eletromagnetismo, do Curso de Engenharia Elétrica. Ao lado da casa dos Bemerguy, ficava a residência de outra família Sampaio, Seu José do Carmo e Dona Orencia, que fazia esquina com a Conselheiro Furtado. Os Sampaios tinham dois filhos: Newton, dentista e já falecido, e Noemy, recentemente falecida.

Completando os vizinhos de nosso quarteirão, tivemos a família Avelino, que morava na esquina da Arcipreste, com entrada por esta rua, e que tinha um grande quintal que fazia limite com a casa dos Sampaios, nossos vizinhos. A família Avelino, Dona Idalia (Dadá) e seu Eunápio, tinha dois filhos: Paulo (conceituado médico) e Hilda (recentemente falecida). Faziam ainda parte da família Avelino a Dona Lili, irmã de Dona Dadá, e a sobrinha Maria Sarah Cardoso Nunes (“Sarita”, que hoje mora em Niterói). A Dona Dadá encantou-se com o Mário quando pequeno e o considerou como um filho, tanto que ele praticamente morava com a família Avelino. Até hoje, o Mário tem um vínculo muito afetivo de ``parentesco’’ com essa família.

Depois que a família Avelino mudou-se para a Conselheiro Furtado, próximo da Avenida Generalíssimo Deodoro, a casa foi ocupada pela família Dias Ferreira, Seu Fernando e Dona Raimunda de Paiva, que tinha seis filhos: Fernando, Maria, Carmen, Laurênio, Manoel Maria (hoje, conceituado médico) e Terezinha.

A próxima ocupante dessa casa foi a família Caldeira, Seu Pedro Maria e sua mulher (cujo nome não recordo), que tiveram quatro filhos: Oneide, Ione, Orlando e Hélio. A Ione foi uma de minhas alunas particulares de Matemática.

Conforme falei acima, a casa ocupada pelas famílias Avelino e Dias Ferreira tinha um grande quintal, no qual foi construída uma vila de três casas, a Vila Maria. A primeira delas, que ficava na esquina da Arcipreste, foi ocupada pela família Mesquita, Seu Artur e Dona Ester, e seus filhos Ivanise e Roberto (geólogo do Departamento Nacional de Pesquisas Minerais) A Ivanise foi também uma de minhas alunas particulares de Matemática. Na casa do meio (de número 429), morou uma família, cuja filha Terezinha de Jesus Aquino (falecida em 1998), que morava com sua mãe, a Sra. Saturnina Aquino, casou-se, em 1954, com o Arthêmio Scardino Guimarães, que foi durante muito tempo Diretor Administrativo do hoje extinto jornal A Província do Pará. Aliás, o Arthêmio (já falecido) era irmão do hoje engenheiro mecânico Ademir, que foi meu aluno no CEPC, a quem agradeço as informações sobre seu irmão e alguns vizinhos dele. Depois do nascimento de sua primeira filha Heliana, a família mudou-se para a Avenida Comandante Braz de Aguiar e a casa passou a ser ocupada pelo famoso maestro paraense Guiães de Barros. Por fim, na terceira casa, segundo o Ademir Scardino Guimarães (informada prestada a mim, por e-mail, no começo de 2007), morava o Sr. José Lusquinhos, que era dono de uma joalheria, com a sua esposa, a Sra. Carmen Lusquinhos e os filhos: José Maria, que se formou em Direito e Maria José (de apelido "Zezete"), que se formou em Medicina. Hoje, nesta casa, mora a Dona Catarina, viúva do senhor Álvaro Cardoso Bastos.

Em continuação aos nossos vizinhos, vou destacar alguns que moravam na Arcipreste, na continuação da São Pedro, e na Conselheiro Furtado. É oportuno destacar que essa amizade decorria do fato de que o papai consertava os sapatos dos componentes dessas famílias. Na Arcipreste, no quarteirão limitado pelas Travessas Tupinambás e São Pedro, tivemos, logo na esquina, a família Ribeiro Alves, Seu Luís Santiago e Dona Cândida (ambos falecidos), com os filhos: Ana Maria, Luís Santiago, Antônio e Rosa Maria. A Ana Maria também foi uma de minhas alunas particulares de Matemática. Ainda desse mesmo lado da Arcipreste, ficava a Tanoaria do Seu Antonio Antunes das Neves, casado com a Dona Orminda. Eles moravam ao lado da Tanoaria, com os filhos Américo, Edite e Esmeralda. Ao lado da Mercearia e Padaria Fortaleza do Humaitá, morava a família Maia da Costa, Seu Isáuro Gonçalves da Costa (que era médico) e Dona Cilísia Maia da Costa, com os filhos Isáuro Célio (``Neném’’), Manoel José (``Duca’’), Clara Maria, Cilísia Célia e Luís Ney. Com o “Duca”, que é engenheiro civil e arquiteto, tive uma relação maior de amizade, pois ele foi meu colega de magistério da UFPA. Na seqüência, moravam as seguintes famílias: Martins, Seu Flávio (o famoso jogador “Vivi” do Clube do Remo), Dona Maria da Conceição e as filhas Ieda (falecida), Iacy e Iolanda; Nogueira, Seu Mário Azevedo Nogueira e Dona Mercedes Fernandes de Azevedo Nogueira, com os filhos Daniel, Armando (médico, recentemente falecido), Mário (advogado), Guilherme (que faleceu cedo de apendicite supurada), Afonso Henriques (engenheiro, já falecido) e Maria Eugênia, que também foi uma de minhas alunas particulares de Matemática. Ao lado da casa dos Nogueira morava a família Viana: Seu Osvaldo, Dona Maria e os filhos Marcílio, Renato e Waldemar; este foi rádio-ator da Rádio Clube, PRC-5 e hoje é um conceituado advogado. Com a mudança dessa família, a casa foi comprada pelo professor Djalma Montenegro Duarte, meu professor na EEP e que, até falecer, foi meu grande amigo.

Ainda na Arcipreste, porém no quarteirão limitado pela Avenida Padre Eutíquio (antiga São Mateus) e a rua de casa, registro os seguintes vizinhos: pelo lado direito, os Caldeira, já mencionados, e logo depois a família Rezende, Seu Antônio e Dona Maria, e seus filhos: José (engenheiro), Lucila, Elisa e Celanira. Ainda mora nessa casa a Lucila. Ao lado morava a família Brito, Seu Dário, Dona Cândida e os filhos: Lígia, Jonas (engenheiro), Lacy, Arival (hoje, conceituado médico dermatologista), Iolanda e Ailce. Brinquei muito (bola e “botão”) com o Lacy e o Arival. Mais tarde, minha amizade com Arival estreitou-se bastante, pois ele era professor da Faculdade de Medicina, e chegou a ser seu Diretor, quando ela se transformou no Centro de Ciências da Saúde da UFPA.

Pelo lado esquerdo da Arcipreste, moravam as famílias: Maciel: Seu Lauro, Dona Lucila e os filhos Luís Otávio, José Lauro, Antônio Luís, Rosa, Lúcia, Janira, Laércio e Ana Cristina; na casa ao lado, moraram as professoras Natércia e Lúcia, com quem estudaram o Antônio e a Madá; depois ocupou essa casa a família Carneiro, já mencionada; em seguida vinha a família Pessoa: Seu Artur, Dona Mimi e os filhos, dos quais me lembro apenas da Josélia e do Artur; ao lado, morava o Comandante Flávio Moreira. Na casa seguinte, morou a família Azevedo: Oscar Alves de Souza Azevedo e Maria da Conceição Novaes Azevedo, e as filhas Lúcia Cândida Azevedo (hoje casada com o advogado Paulo Rúbio Meira) e Consuelo Dolores Azevedo (hoje viúva do Afonso Henriques Nogueira); esta foi também uma de minhas alunas particulares. Ainda nesse quarteirão, moraram a família Coelho, Seu Antônio e Dona Antonina, e os filhos Nair, Sérgio e Laurinda. Esta é casada com o químico Lourival Franco, meu colega de magistério no CEPC, e meu vizinho, quando já casados, moramos no Edifício Santarém, na Conselheiro Furtado, defronte da Roberto Camelier; a família Figueiredo, cujo sobrinho Hélio Figueiredo da Serra foi meu grande amigo de infância e com quem brinquei bastante.

Hélio Serra, os “choros” das Santas e as Festas Juninas

Com o Hélio recordo-me de muitas coisas que realizamos juntos. Por exemplo, quando houve um surto de “choros” de Santas em Belém, fizemos muitas “peregrinações” noturnas a essas casas. Às vezes, participava dessa peregrinação meu outro grande amigo, Loriwal Rei de Magalhães, de quem falarei mais adiante. Esse surto iniciou-se com o “choro” de uma Santa na Igreja do Padre Antônio, em Uberaba, Minas Gerais, em 1948. Assim, no dia 03 de novembro de 1948, o jornal Folha do Norte abriu a seguinte manchete: Santa chora na casa de uma mulher humilde. Tratava-se do “choro” de Nossa Senhora das Graças, na casa da Dona Zenóbia da Costa, na Avenida Conselheiro Furtado, próximo da Travessa 9 de Janeiro. Imediatamente, várias romarias foram organizadas para ver o “choro” e, no trajeto delas, os romeiros (inclusive eu e o Hélio), tomavam “emprestado” tijolos das construções para ajudar a construir uma capela para a Santa, capela, aliás, que existe até hoje e que, certamente, não foi construída somente com esses tijolos “emprestados”, e sim com várias doações dos beneficiários dos “milagres” que o “choro” da Santa promovia. Esses beneficiários tinham em suas famílias portadores de deficiência (cegos, surdos, mudos, aleijados etc.). A minha própria família participou dessa busca milagrosa, pois, como a minha avó Tereza estava cega, sua filha, a tia Luzia, levou-a, em um “carro de aluguel”, como eram chamados os “táxis” de hoje, para ver se o milagre da recuperação da visão acontecia. Minha avó Tereza morreu cega, no dia 04 de novembro de 1952. Ainda com o Hélio, visitamos outras casas em que outras Santas “choravam”. Lembro-me de uma casa de pessoas de posse, na Avenida Braz de Aguiar, esquina com a Passagem MacDowell, e uma casa humilde na Travessa Apinagés, passando a Rua Caripunas. É claro que essa onda de “choros” contagiou várias casas de Belém. A tia Luzia começou a ver “lágrimas” em um quadro de uma Santa que tínhamos em casa, o que, contudo, não passou apenas de um desejo de ser privilegiada por Deus. Contudo, essa desilusão da tia Luzia não aconteceu com a Dona Nancy, esposa do Dr. Durval, nossos vizinhos defronte de nossa casa e já referidos. Em sua casa, houve o “choro” de uma Santa. Recordo-me da luta ansiosa de um humilde mudo, que fazia serviços para essa casa, na frente da Santa para recuperar a sua fala. Ele permaneceu mudo! Registre-se que o “choro” na casa da Dona Zenóbia acabou quando ela fantasiou-se para brincar o Carnaval de 1949, e a Folha do Norte exibiu sua foto carnavalesca, com a seguinte manchete: Zenóbia gaiteira esmerila o dinheiro da Santa. Registre-se, também, que as primeiras reportagens sobre a Dona Zenóbia foram feitas pelo então repórter da Folha do Norte, Geraldo Palmeira que, mais tarde, se tornaria um político muito influente em Belém. Dizia a “rádio cipó” que esse “choro” foi invenção dele!

Eu e Hélio fizemos outras incursões noturnas. Íamos com freqüência ver as “Festas Juninas” no famoso “Terreiro do Pai do Campo”, na Rua dos Mundurucus, próximo da Rua dos Jurunas (Muito mais tarde, o terreno onde se situava esse “Terreiro” foi vendido, em lotes, e meus amigos Luiz Gonzaga Baganha e Alírio construíram suas casas, uma ao lado da outra; Baganha ainda mora lá, porém, não mais o Alírio por haver falecido.) Como não tínhamos dinheiro para pagar o ingresso, geralmente arranjávamos uma maneira, não muito honesta, de entrar no recinto onde ocorriam as peças sobre um determinado pássaro. De um modo geral, nessas peças teatrais, o caçador sempre tentava matar o pássaro. Numa dessas peças que vimos, o “Bem-te-vi”, o caçador estava bêbado. Quando a atriz, que representava o “Bem-te-vi”, perguntou ao caçador por que ele queria matá-lo, ele respondeu: Mato a ti e até a p... que o pariu. Claro que houve uma risada geral na platéia! Lembro-me com saudade dessa Belém. Ao término dessas nossas peregrinações, vínhamos andando, de madrugada, sem medo de assalto. Como as ruas não eram iluminadas, tínhamos medo, apenas, de “visagem” e de outros “assombradores” do imaginário popular: “Matintapereira”, “Lobisomem”, “Porco sem cabeça”, “Saci Pereré”, etc.

Por fim, com o Hélio, aconteceu uma coisa que me dói até hoje. Ele havia se formado na Marinha Mercante. Mais tarde, contudo, fez vestibular para a EEP, que funcionava ainda na Travessa Campos Sales. Na prova de Física, eu era um dos fiscais. Como ele estava com dificuldade em uma das questões, consultou-me para tirar uma dúvida. Eu, usando uma moral rígida, disse que não poderia ajudá-lo, pois, se assim o fizesse, estaria prejudicando os demais concorrentes. Felizmente, ele passou no Vestibular, e formou-se em Engenharia Civil como eu. Hoje, ele é aposentado do ex-Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER) e cursa o terceiro período na Faculdade de Jornalismo “Pinheiro Guimarães”, no Rio de Janeiro. Aliás, a vontade de ser engenheiro já havia se manifestado em nós desde muito cedo pois, conforme registrei antes, eu fazia as minhas “construções” no quintal de casa, e ajudava o Hélio a fazer as dele, em seu quintal.

A turma da Sapataria do Arnoud

Ao lado da família Figueiredo, morava a família Maia, Seu Manuel e Dona Edwiges, e os filhos Orlanda, Tereza, Emanuel, Armando, Orlando, Luís e Miguel; ao lado dessa família moravam as professoras Zilda e Palmyra Garcia, já por mim referidas. Mais adiante, moravam outras famílias, com cujos filhos brinquei bastante. Por exemplo, na casa do Eduardo Castro (já falecido), em cujo quintal treinávamos luta-livre, em um ringue improvisado que nós mesmos construímos, assim como brincávamos muito vôlei, com a Aimede e a Celina Prado, e sua prima Nazaré. Elas eram netas da grande Ana Prado, uma espírita bastante famosa em virtude de experiências de reencarnação que realizava. Já a conheci no ostracismo. Dessa turma da luta-livre e do vôlei, além do Hélio Serra, fazia parte também meu grande amigo Loriwal, que morava na Padre Eutíquio. Devo a esse grande amigo meu primeiro emprego público: foi ele que me levou para trabalhar no então Serviço Municipal de Estradas de Rodagem (SMER), em março de 1954. Aliás, na adolescência, eu e ele compartilhamos uma mesma namorada: a Raimundinha, como a chamávamos. Eu, de madrugada, quando íamos, eu e ela, comprar carne no Mercado Batista Campos, e o Loriwal, na noite anterior a essa madrugada. Ainda dessa turma do vôlei, participou o Lóris, que morava nesse mesmo quarteirão da Arcipreste. Também foi um de meus grandes amigos de infância. Tive muita briga com ele, pois, sendo ele um bom jogador de “pelada”, às vezes, eu ficava chateado por ele fazer mais gols do que eu, na célebre “pelada dominical” que jogávamos no “Largo de Engomar”, já referido. Aliás, essa animosidade “futebolística” com o Lóris e com outros “peladeiros” [dentre os quais me lembro do Olímpio (em cujo porão de sua casa, na Rua Veiga Cabral, nossa turma jogava “ping-pong”, enquanto o Hélio Serra namorava sua irmã mais nova, a Cléa) pelos ataques de epilepsia que sofria, devido ao esforço que fazia na “pelada”] era o tema de conversa na Sapataria do Arnoud, localizada na Padre Eutíquio, quase esquina da Arcipreste, durante toda a semana, por ocasião das reuniões que fazíamos nela, no final da tarde, de segunda a sábado. Aliás, anos mais tarde, o Loriwal ensinou topografia para o Arnoud (já falecido) e, com isso, conseguiu um bom emprego de topógrafo na PETROBRÁS.

Das reuniões realizadas na Sapataria do Arnoud, nas quais participavam os amigos já referidos, e o Milton da Rocha Souza, auxiliar do Arnoud, o Milton Maia, os irmãos Cabral: Alfredo e Artur, e seu primo Décio, os irmãos Araújo: José Maria (“Seu Cumpadre”, já falecido), Emanuel (engenheiro) e João, os irmãos Virgulino: Eduardo (médico, já falecido) e José (professor normalista), os irmãos Lourenço: Everaldo (comerciante) e Hélio (cirurgião dentista), meu primo Antônio Filardo, Manoel Pignataro (mais tarde, um excelente jogador de futebol), os irmãos Sandres: Renato (médico) e Henrique (ele foi meu aluno e Monitor na EEP, conforme registrarei em um outro texto destas reminiscências), Alexandre Silva Martins (“Papão”, era um excelente tocador de “bongô”; ele tocou na TV Marajoara e, mais tarde, na TV Tupi, no Rio de Janeiro), e tantos outros, lembro-me de alguns fatos marcantes relacionados à acirrada eleição governamental entre o General Barata e o Marechal Alexandre Zacarias de Assunção, ocorrida no final de 1950. O Barata era o grande líder político do Pará, que ascendeu ao poder paraense como decorrência da Revolução de 30, liderada por Getúlio Vargas. Certamente por causa dessa liderança, seus partidários, os chamados “baratistas” e pertencentes ao Partido Social Democrata (PSD), dirigido pelo Barata no Pará, realizaram vários atos truculentos e violentos com seus adversários políticos. Em virtude disso, quando ele perdeu a eleição, por uma diferença de 555 votos, houve uma grande manifestação de júbilo em Belém. Todos os bairros de Belém foram decorados com bandeirinhas. Em nosso bairro, Batista Campos, não foi diferente. Lembro-me de haver pendurado muitas bandeirinhas por conta dessa festa, junto com a Turma da Sapataria do Arnoud, para desespero de uma “baratista” que morava junto daquela Sapataria. Em conseqüência dessa grande vitória, lembro-me, também, da visita que o Governador de São Paulo, Ademar de Barros, líder do Partido Social Progressista (PSP), fez ao Dr. Ferreira Lemos, um dos líderes desse Partido político, que morava na Padre Eutíquio em uma das famosas “casas altas”, de um conjunto que terminava na Arcipreste.

A Copa do Mundo de 1950 e o “Uruguai Futebol Clube”

Na São Pedro, no quarteirão compreendido entre a Arcipreste e a Rua Veiga Cabral, pelo lado direito e na direção da Veiga Cabral, morava a família Tavares: Seu Adelino e Dona Lucinda e os filhos Lucélia, Wilson, Antônio, João, Iolanda, Ivone e Cláudio. O João Tavares foi meu grande amigo de infância. Com ele, freqüentei muitas festas de igreja, principalmente a da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, que ficava na rua Cesário Alvim, uma continuação da Arcipreste, na direção da Estrada Nova, e que chamávamos de “Coréia”, em virtude da “Guerra da Coréia”, iniciada em 1950. Ao lado da casa dos Tavares, morava uma família que mantinha uma horta, onde plantavam couve, alface, tomate, jerimum (cujas sementes eu comia torradas na chapa do fogão de lenha de minha casa), etc., e que eram vendidos, para a vizinhança, por um membro dessa família em um carro de madeira, com um grande depósito e onde ficavam essas verduras, apoiado em duas longas travessas de madeira, que se uniam na frente a uma roda. Dessa família, houve um amigo meu de infância, o Walter que, mais tarde, viria a ser jogador de futebol do Clube do Remo.

O ano de 1950 tem, para todos os brasileiros amantes do futebol, uma recordação trágica. Trata-se do dia 16 de julho, dia em que houve o jogo Brasil x Uruguai, que decidia a Copa do Mundo de 1950. Perdemos de 2 x 1. Gols de Friaça, para o Brasil, e de Schiafino e Gighia, para o Uruguai. Aliás, nesse dia, eu estava no Campo do Paysandu, na Avenida Tito Franco (hoje, Almirante Barroso) entre as Travessas Curuzu e Chaco, assistindo ao jogo Remo x Paysandu, levado por meu irmão Antônio. Esse jogo foi ganho pelo Remo, com um gol do Itaguarí, um negro, que era um excelente jogador e com a característica de jogar de toca. Desse jogo, lembro-me de um fato inusitado. De todos os presentes no campo, apenas um estava muito feliz. Tratava-se do jogador Veliz (Júlio), que era uruguaio e goleiro do Remo. Esse jogador tinha sido contratado pelo Remo ao São Cristóvão, clube carioca, que viera a Belém fazer uma excursão. Esse time tinha sido campeão carioca no ano de centenário do Rio de Janeiro e possuía um excelente time: o goleiro Veliz, os zagueiros Raimundinho e Augusto, a linha média formada por Bianchi, Papeti e Castanheira, e a linha atacante constituída por Santo Cristo, Walfrido, João Pinto, Nestor e Magalhães. O “center forward” João Pinto era um terror. No jogo do São Cristóvão com o Paysandu, ele fez tanto gol que, nós, remistas, fizemos uma paródia com a música, cantada pelo Orlando Silva, o chamado “Cantor das Multidões”. Essa paródia era a seguinte: Aos pés de Santo Cristo, Dodó (goleiro do Paysandu) se ajoelhou, pedindo que João Pinto não fizesse mais nenhum gol .... . Anos mais tarde, já no DMER, tive oportunidade de conversar bastante com o Veliz, que era motorista da ambulância do Setor Médico desse Órgão Rodoviário Municipal.

Essa derrota do Brasil para o Uruguai ensejou que eu e Hélio Serra, mais os amigos da Travessa São Pedro e adjacências [dentre eles, Paulo Emílio Fiúza, os irmãos Sandres, Lóris, Pignataro e Teobaldo ("Teo") Guilherme Rosa] criássemos um time de futebol, o Uruguai Futebol Clube, com o qual disputávamos jogos com outros times, nos campos do Liberto, São Domingos e Imperial. Lembro-me de que pedíamos ao Pantoja, que era jornalista da Folha do Norte e Folha Vespertina, para dar notícias sobre esses jogos. Aliás, segundo me contou o Hélio Serra, a inauguração desse nosso clube foi comemorado com uma feijoada na casa do Fiúza, que residia na Travessa São Francisco.

Os vizinhos: 3

No lado direito desse referido quarteirão da São Pedro, na direção da Arcipreste para a Veiga Cabral, morava a família Barata, Seu Antenor e Dona Laura, e os filhos Antenor Augusto, Aldenora, Aldenor e Aumilton. O Antenor Augusto, falecido em 2007, tornou-se um bom cantor, e fez algumas apresentações nas rádios Clube do Pará e Marajoara. No quintal da casa dele joguei muita “pelada”. À casa dessa família Barata, ia sempre o Anacleto, que vendia tucupi. Contudo, como ele tinha dificuldade de dicção, dizia “tutupi”, e, por isso, ficou conhecido como o “Tutupi”. Ao lado da família Barata, morava a família do Seu Mimo. Na seqüência, vinha a família Rosal, Seu Pedro e Dona Julieta, e os filhos Pedro, Lourdes e Helena, esta é hoje professora aposentada da UFPA. Ao lado, morava uma outra família Tavares, cujos filhos eram a Júlia, o João, o Raimundo (``Dico’’) e o Eduardo. O Eduardo era casado com a Dona Eduarda. Na casa dessa família havia uma oficina de consertos de carro e de fabricação de ônibus. Foi lá que foi construído o ônibus em forma de Zeppelin, de nome Viação Pérola, e que foi uma sensação em Belém nos anos 40 e 50. (Aliás, esse ônibus era uma réplica dos outros cinco construídos na Indústria São José de Ribamar Ltda., de nome Viação Sul Americana, de propriedade de Clóvis Ferreira Jorge, segundo registro do professor Armando Dias Mendes, em seu livro A Cidade Transitiva, IOF, Belém, 1998.) Ao lado dessa família, morava a Dona Manoela, cujo filho, o Pedro, era investigador. Morava, também, o Eugênio, com quem brinquei, e que aplicava injeções. Cheguei a tomar algumas com ele. Em seguida, vinha a casa do Seu Sidoca, que fazia móveis, e que tinha um filho adotivo, o Jaime Passos, que, até hoje, mora lá, e teve uma oficina de consertos de carro. Em uma das esquinas da São Pedro com a Rua Veiga Cabral ficava a Mercearia do Antônio Agrião, o ``Paysandu’’. Nela, nas horas de folga, ajudava-o fazendo sacos de papel de embrulho. Esse tipo de papel era áspero, poroso e de cor cinza. As compras feitas nas Mercearias de Belém daquela época, de um modo geral, eram embrulhadas com esse tipo de papel e com um outro tipo, conhecido como papel manilha, quase de mesma textura, porém de cor rósea. Aliás, depois do uso desses papéis, eu os aproveitava para fazer meus cadernos de estudos dos Cursos Primário e Ginasial. É oportuno registrar que, devido à porosidade desses papéis, eles não serviam para a compra retalhada de manteiga e de banha. Nesse caso, era usado o papel vegetal. Esse tipo de papel, que é translúcido e impermeável, foi muito usado para fazer os desenhos (hoje, feitos em computador) de Engenharia Civil. Usei-os bastante nas plantas das casas que fiz, bem como nos cálculos estruturais que realizei. Tratarei desse assunto em outro artigo dessas minhas lembranças. Registre-se ainda que as três esquinas restantes da São Pedro com a Veiga Cabral eram ocupadas por hortas.

No quarteirão da São Pedro, entre a Veiga Cabral e a Avenida Almirante Tamandaré, também tivemos relações de amizade com alguns moradores. Dentre eles, lembro-me bastante da família Santos, cujos filhos eram: Alberto, Armando, Antônio e a irmã Alcina. O Alberto, que chamávamos de ``Bé’’, já falecido, trabalhava na Sapataria Sem Rival, do Seu Isaac Garcia, que ficava na Avenida Padre Eutíquio, logo depois da Rua Senador Manoel Barata. Lá trabalhou, também, a tia Luzia, como costureira de sapatos. Lembro-me de ir sempre nessa Sapataria buscar a tia Luzia para acompanhá-la na compra de algum presente para mim. Um desses presentes foi um revólver de brinquedo comprado na Casa dos Presentes, que ficava localizada na Senador Manoel Barata, entre as Travessas Campos Sales e Frutuoso Guimarães.

Na Avenida Conselheiro Furtado, tivemos, também, relações de amizade com várias famílias. Já falei da família Amor Divino. Ao lado dela, morou a família Gonçalves: Seu Domingos e Dona Elvira (já falecidos) e os filhos Augusto, Artur (já falecido) e Adriano. O Seu Domingos tinha a Fábrica de Mosaicos Cruzeiro. A casa dele tinha um grande quintal, frutífero como o nosso, onde ficava essa Fábrica e fazia limite com o nosso quintal. Antes dessa família e de minhas lembranças, morou a família do Francisco Paulo do Nascimento Mendes, que, mais tarde, viria a ser meu professor no CEPC e se tornou meu grande amigo. Ao lado da família Gonçalves existia uma fábrica de móveis. Junto a esta, morou a família do João Bahia, que foi meu grande amigo de adolescência. Com ele, fui muito ao arraial junino da Igreja de Santa Terezinha, na rua dos Jurunas, esquina com a Travessa São Miguel. Ao lado da casa do João, morou, inicialmente, a família do grande advogado Pereira Brasil, cuja filha Francy, hoje Francy Meira, é esposa do engenheiro e arquiteto Alcir Meira. Lembro-me de que eu e Maria brincávamos muito com a Francy. Depois que essa família mudou-se para a Avenida 15 de Agosto, hoje Presidente Vargas, junto ao Clube Assembléia Paraense, a casa foi ocupada pela família do historiador Ernesto Cruz, com a esposa Antonieta e os filhos Cauby, Ajanary e Coaracy, que eram exímios jogadores de tênis de mesa (“pingue-pongue”). Quando eu treinava celotex (“botão”) na sede do Clube do Remo, os Cruz também treinavam tênis de mesa. O Cauby (já falecido) era, também, um excelente poeta. Mais adiante, e ainda nesse mesmo lado da Conselheiro, morava o Renato Coral (com quem também joguei “botões”) e, um pouco adiante, a família do Seu Eduardo (“Dudu”) Failache, com a esposa Eledes Pitágoras e os filhos Mário, Maria de Lourdes (“Lulu”), Carmen e Conceição. Ele era dono do famoso “sebo”, a Livraria Econômica, que ficava na Travessa Campos Sales, defronte do prédio onde funcionou a EEP. A casa dele era a sede do time de “celotex” Colo Colo, do qual fiz parte com seu filho Mário. A família Failache depois se mudou para a Vila de Icoaracy, onde tiveram mais três filhos: Eduardo, Socorro e André. O Mário morreu bruscamente, com a esposa, filha e neto, em desastre de carro, próximo daquela Vila. Aliás, o Mário foi quem fez as fotos de meu casamento com Célia, no dia 06 de outubro de 1962. Registro ainda que, ao lado da casa dos Failache, morava o advogado Waldemar Viana num “bangalô”, no qual trabalhei depois que passou a ser a sede do então SMER, em 1954.

O “celotex” e os amigos que fiz nesse jogo de “botões”

O nome “celotex” dado ao jogo de “botões” foi cunhado pelo jornalista paulista Geraldo C. Décourt, por volta de 1930, porque a mesa onde ele jogava “botões” era de um material importado de Chicago, nos Estados Unidos da América, de uma firma chamada The Celotex Co.. Além de dar o nome desse jogo, ele editou suas regras e a divulgou nos vários jornais da então Capital Federal, a cidade do Rio de Janeiro, conforme ele próprio registrou em seu livro intitulado Aconteceu, sim!... , publicado pela Editora Pannartz, S.P., em 1987. [Aproveito a oportunidade para agradecer ao meu amigo e “celotexista” (“palhetista”) Ruy de Oliveira Barros o acesso a esse livro, no qual vi nomes famosos de vários “celotexistas” (o ex-Ministro Delfim Neto, o ex-Governador Lauro Natel, o ex-Deputado Federal Herbert Levy, o ex-pugilista Eder Jofre, o treinador e ex-jogador de futebol Zagalo, os comediantes Costinha e Chico Anísio, os compositores Chico Buarque de Holanda e Toquinho, e os atores Nuno Leal Maia e Osmar Prado), bem como a outras informações que utilizei nestas notas “celotexistas”.]

Quando comecei a “celotexar”, em 1953, o Celotex já era um dos esportes oficiais da então Federação Paraense de Desportos (FPD), pois sua inclusão havia sido feita em 1950, pelo então Presidente dessa Federação, o Coronel da Polícia Militar do Estado do Pará, Arthur de Souza Vieira, sendo o Departamento de Celotex dirigido por Raymundo Eulálio Amorim. (Registre-se que este jornalista, enquanto permaneceu no comando desse Departamento da FPD, manteve uma coluna no jornal Folha Vespertina, intitulada Celotex aos Sábados). Contudo, a mudança do nome Celotex para Futebol de Mesa parece ser desconhecida, conforme a pesquisa realizada, em 2000, pelo também “celotexista” Theodorico Cardoso Rodrigues, hoje Oficial Reformado da Polícia Militar do Estado do Pará, ex-Juiz de Futebol e ex-Comentarista Esportivo, conhecido como o “Papa da Arbitragem”, da Rádio Clube e da Rádio Marajoara. Creio ser oportuno dizer que, antes da oficialização do Celotex, ele foi jogado extra-oficialmente em vários outros clubes e, por isso, foi criada, por volta de 1948, a Associação Paraense de Celotex. Dentre esses clubes, o mais destacado era o São Matheus, na então Travessa São Matheus (depois Avenida Padre Eutíquio), dirigido pelo Sr. Oleno, no qual iniciou o próprio Theodorico e que, também, contava com outros grandes “celotexistas”, como Abel, “Bronzeado”, Durval, Fernando Andrade (que, mais tarde, se tornou árbitro de futebol), Lindolfo Ayres e Nilo Cardoso. [Para maiores detalhes sobre o Celotex, antes de 1950 e depois que deixei, por volta de 1960, de praticar esse “esporte da bolinha de lã” (nome cunhado pelo jornalista esportivo da A Folha do Norte, Laurestino Soares), ver a excelente pesquisa do Theodorico, referida acima. Aproveito a oportunidade para agradecer as informações adicionais que ele me prestou para estas recordações de minha vida de “palhetista”.]

É oportuno dizer que, antes de me tornar um “jogador profissional” desse “jogo de botões”, brinquei em várias casas de amigos de infância e de adolescência. Por exemplo, quando estudava no Curso Primário do Professor Raymundo Firmiano Lobo, brinquei na casa de meu colega nesse Curso, o saudoso Odilon Andrade, que se localizava na Rua Arcipreste Manoel Teodoro, próximo do então “Largo da Pólvora”. Quando aluno do Ginásio, no Colégio Estadual “Paes de Carvalho” (CEPC), brinquei na casa de meu amigo Ronaldo Passarinho Pinto de Souza (hoje, advogado, Conselheiro do Tribunal de Contas do Município e ex-Deputado Estadual), que morava na Travessa Apinagés, próximo da Rua dos Tamoios, juntamente com o falecido médico Rodolfo Tourinho que, nessa ocasião, namorava com sua irmã Celeste. Na mesma Tamoios, porém próximo da Travessa do Jurunas (hoje, Avenida Roberto Camelier), joguei na casa do Orlando Vilhena, filho do dono do Café Manduca, o senhor Manoel Vilhena. É claro que também joguei em casa, com meus irmãos, Antônio e Mário, e com vizinhos.

Antes de falar nos amigos que fiz no jogo de Celotex, farei uma pequena descrição dele. Ele era constituído de 10 botões de madeira (pau amarelo, macacaúba, goiabeira, etc.), com diâmetro aproximado de 5 cm, cerca de 1 cm de altura e cavado, confeccionado no “torneiro” da rua 28 de Setembro, no Bairro do Reduto. Completava o “time de celotex”, um goleiro de madeira pesada (normalmente de acapu), na forma de um prisma de cm. O jogo oficial de “celotex” era jogado em uma mesa de madeira de m, revestida de compensado, com redes nas laterais para impedir que o botão caísse no chão e se quebrasse, e apoiada em cavaletes de 0,7 cm de altura. As traves eram de ferro cm, completadas com uma rede. A bola era de lã, com 2 cm de diâmetro. Para confeccioná-la, enrolávamos fio de lã (de uma única cor ou de cores misturadas) em um garfo e depois o enrolado era amarrado no meio dos dentes, resultando um pacote na forma de um oito. Esse pacote era então desbastado com uma tesoura de ponta fina, e, com auxílio das mãos, a forma esférica era finalmente conseguida. Recordo que o Ruy Barros era um exímio fabricante dessas bolas. O deslocamento dos “botões” nessa mesa era conseguido por intermédio de uma palheta de mica, cuja forma dependia do jogador. De um modo geral, tinha a forma de um trapézio, com o lado menor na forma de “bico de flauta”, para impulsionar o “botão”. Havia casos de a forma ser semicircular. Para evitar o atrito dos botões na mesa, ela era parafinada, assim como os botões. Hoje, esse jogo ainda é realizado no mesmo tipo de mesa, porém com pequenas alterações na regra, com os botões de plástico PVC, com diâmetro de até cm, a palheta de acrílico e a bola de borracha, segundo me informou meu amigo Ruy Barros.

Vejamos, agora, os amigos que fiz no “celotex”. Conforme registrei acima, este futebol de “botões” foi formalmente oficializado em 1950, sendo, ainda neste ano, Campeão e Vice-Campeão, respectivamente, o Grajaú Esporte Clube e o Colo Colo Celotex Clube. No Grajaú, jogavam: Almir Nobre (radialista), Francisco (“Chico”) Otávio, José Maria Hosana, e os falecidos Mário Azevedo (depois, meu colega no DMER) e Otávio Ledo Nery (cunhado do Hosana, Sargento da Aeronáutica, a quem, depois, dei aulas de Física e Matemática). O Grajaú possuía um time interno, o Olímpicos, com os seguintes jogadores: Antonico Hosana, César Botelho de Lima (falecido), Elias Barbosa (“Rubens” e “Santo Antonio”), Hubert de Oliveira Mendes (“Nena”), Osmar Sabóia de Barros, Ruy de Oliveira Barros e Secundino Portela (falecido). No Colo Colo, jogavam: Carlos Lemos (jornalista), Cássio, Edgar Oliveira (funcionário do antigo SNAPP), e os falecidos Guilherme O´ de Almeida, Mário Failache e Renato Coral (que era engenheiro agrônomo). No ano seguinte, em 1951, o Grajaú foi Bicampeão, tendo o Pará Celotex Clube. Este foi fundado por “Manduca” e no qual jogavam: Dagoberto Souza, Fernando Souza (motorista), Geraldo França, os então acadêmicos de engenharia Hélio Cardoso e Joaquim Albuquerque, além de Theodorico Rodrigues. Em 1952, o Colo Colo foi o Campeão com o Grajaú como Vice-Campeão.

Em 1953, conforme afirmei acima, comecei a “celotexar” no Valparaíso, que era o time interno do Colo Colo. Dos que jogavam comigo, recordo apenas do Odilson (conhecido como “Amigo da Onça” e hoje engenheiro) e Antonio Carmelo Lustosa Failache, tio do Mário (hoje médico). Por essa época, recordo ainda outros clubes de celotex, tais como: o Talismã, no Bairro Cidade Velha, no qual jogavam: Carlos Amílcar Pinheiro e Dirceu Raymundo Pinto Marques (hoje engenheiros e foram meus alunos de Física na preparação do Vestibular de Engenharia), Dirceu Pinto Marques, Emílio Albuquerque (hoje médico), Tugdual Guedes do Carmo, Valmiro Assumpção, e os irmãos Sá Vieitas; o Yolanda, na Travessa Lomas Valentinas, cujos únicos “palhetistas” do quais me recordo jogando nesse clube, eram: Antonio Rocha, Benedito Vasconcelos (“Bibi”), Luiz Carlos Oliveira (“Setenta”) e Mário Luz; o Bangu, no Bairro de Canudos, no qual jogavam o Antonico, o Carlos Costa, o Jorge Costa Rodrigues (depois, tornou-se oficial da Polícia Rodoviária do Pará) e o excelente encanador, Ludgardo Pedro Magalhães (“Perico”); Associação Atlética Dramático, na Avenida Generalíssimo Deodoro, no qual um dos grandes “celotexistas” era o então acadêmico de engenharia, o saudoso Ignácio Moura Barroso; e o Similares, no Bairro da Campina, no qual jogavam o Ismael Pinho (meu vizinho na Travessa São Pedro) e o falecido Luciano Oliveira (mais tarde, meu colega de magistério no Departamento de Física da UFPA). Nesse ano de 1953, foram Campeão e Vice, respectivamente, Pará e Dramático.

A temporada Oficial de Celotex era iniciada com o Torneio Coronel Arthur Vieira. Depois, seguia o Campeonato Paraense de Celotex. As partidas que compunham esses eventos aconteciam nos domingos pela manhã, começando oito horas. Cada jogo era constituído de cinco partidas, com 40 minutos cada, com dois tempos de 20 minutos. Havia um juiz (“celotexista”) designado pelo Departamento de Celotex e uma súmula. Normalmente, os treinos para esses jogos aconteciam aos sábados de tarde. Quando havia algum jogo importante no domingo, ocorria um treino na quinta-feira de noite. Em 1954, passei a vestir a camisa grená do Colo Colo, identificada apenas com o escudo CC, em seu lado esquerdo. Minha passagem para o time principal aconteceu porque dois de seus jogadores, Carlos Lemos e Guilherme, haviam se juntado ao Almir Nobre, Ignácio Barroso, Mário Azevedo e Fernando Souza para fundar o Departamento de Celotex do Clube do Remo. Almir e Mário ficaram livres com o término do Grajaú e não quiseram ficar no Olímpicos, como aconteceu com os demais “Grajauianos”. Nesse ano de 1954, o Pará foi Bicampeão, sendo o Remo, o Vice-Campeão. Em 1955, o Amílcar, a convite do Odilson, entrou para o Colo Colo. Em 1955 e 1956, o Remo foi Bicampeão, sendo Vice, respectivamente, Pará e Olímpicos.

Em 1957, aconteceu um fato inusitado e lembrado pelo Amílcar. O Colo Colo, depois que saiu da casa do Mário Failache, foi para a sede social do Remo, na Avenida Nazaré. Nesse ano, o Colo Colo fazia um jogo decisivo com o Remo. Este, lutava pelo tri-campeonato e precisava apenas de um empate. Pois bem, no final da quarta partida, o jogo estava empatado. A quinta partida decisiva seria entre o Amílcar e o Carlos Lemos, ex-“colocolista”, e que agora jogava no Remo. Quase no final dessa partida, que também estava empatada, houve um pênalti contra o Carlos Lemos. Quando o Amílcar se preparava para batê-lo, os demais jogadores remistas (dentre eles, o Guilherme e o Nobre) disseram ao Amílcar que a continuação da mesa do Colo Colo na sede do Remo dependia desse pênalti. Como o Amílcar converteu o pênalti, o Remo perdeu o campeonato para o Olímpicos e fomos despejados da sede do Remo e nossa mesa foi colocada nos jardins da sede do Remo. Com isso, encerrou-se o Colo Colo. Registro que, em 1958, o Olímpicos foi Bicampeão e o Remo, Bi-Vice-Campeão.

Com o término do Colo Colo e com a minha formatura em Engenharia Civil, em 1958, as minhas novas atividades afastaram-me um pouco da “bolinha de lã”. Até 1960, cheguei a jogar no Remo e no Paysandu. Neste, joguei ao lado do “Amigo da Onça”, do “Perico” e de mais dois novos companheiros: Oldemar Souza e Plínio Souza. Em 1959 e 1960, o São Matheus (em sua segunda fase) foi Bicampeão, tendo como Vice, respectivamente, Olímpicos e Belém Celotex.

Depois que deixei de jogar oficialmente o “celotex”, passei apenas a brincar com meu filho Jô, agora, em mesas pequenas e com botões de plástico. Como sempre, o meu time era o Clube de Regatas Vasco da Gama e o dele, o Clube de Regatas Flamengo. Aliás, recordo que, quando “celotexista”, os números de meu time de madeira eram feitos por mim, no SMER, em papel vegetal, com um círculo de tinta nanquim preta, envolvendo o número em tinta nanquim vermelha. Claro que, já casado, senti saudades das “domingadas celotexistas”. Em certo domingo, a saudade foi tão grande que levei meus dois filhos, Jô e Ádria, para assistir a um jogo que acontecia na sede do Santa Cruz, no Bairro da Pedreira. Dos jogadores que realizavam esse jogo, lembro-me apenas do “Bibi”. Essa saudade era também mitigada, em ocasionais conversas com o Plínio, em sua Banca de Revistas, na calçada dos Correios e Telégrafos, na Avenida Presidente Vargas.

Por fim, para concluir essas lembranças “celotexistas”, quero registrar uma “surra” ( ) que levei de meu estimado amigo, o físico e professor Francisco Caruso Neto, em sua sala de trabalho no Instituto de Física da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, quando o visitei, com meu irmão Mário, em 24 de fevereiro de 2005. Essa “surra” ocorreu em uma mesa, metade da que costumava jogar, com botões e bola “cúbica” de plástico, com um goleiro que ocupava quase toda a trave, e com uma regra completamente diferente: 12 toques até o chute final para o gol, sendo que cada botão pode dar no máximo três toques consecutivos. (Detalhes dessa regra podem ser encontrados no site http://www.bolaebotao.com.br, segundo o “palhetista” Caruso.) Creio que o “gol de honra” deveu-se ao meu antigo traquejo com botões de madeira e com a regra de apenas um toque para cada jogador!

A turma da Praça Batista Campos

Voltemos ao João Bahia, o Joãozinho. Além de irmos ao arraial na Igreja de Santa Terezinha, nos reuníamos, na década de 1950, todos os domingos, de tarde e de noite, na Praça Batista Campos, esquina da Rua Mundurucus com a Avenida Serzedelo Correa. Dessa turma, faziam parte os irmãos Éser e Aser Freitas, e seu primo José; os irmãos Murilo e José Carlos ("Maranhão") Ferreira (o Murilo foi dono do Colégio "Rutherford"); o Alaôr Lobo; e o Aírton Souza (engenheiro). Aliás, foi na casa dos irmãos Freitas (que tinham ainda as irmãs Telma e a “Mindinha”, morta prematuramente em um acidente de caminhão), cujos pais eram o seu Saulo e a Dona Elvira, que fiz, em 1955, minha primeira obra de engenharia (um acréscimo no final da casa), na qual realizei meu primeiro cálculo estrutural, que me foi ensinado pelo Baganha, usando o livro Calculista de Estruturas, do Simon Goldenhórn. Além do mais, fiz um painel de cacos de azulejos na fachada da casa deles, na Praça Batista Campos. Esse painel foi desenhado por meu colega de turma de engenharia, o saudoso Wilson Constantino Ferreira. Mais tarde, em 1966, quando estava de “castigo” na Escola de Arquitetura, tornei-me amigo do professor dessa Escola, o saudoso arquiteto Donato Melo Junior (que se tornaria depois um grande amigo de meu sogro, o escritor e jornalista Machado Coelho), que chamava esses painéis de “estilo raio-que-o-parta”. Aliás, meu também saudoso amigo e colega no SMER/DMER, engenheiro Jofre Alves Lessa, foi o precursor desse estilo nas casas que construiu. Nesta oportunidade, quero prestar uma homenagem a esse amigo, pois devo a ele minha indicação para professor de Matemática do Colégio “Abraham Levy”, em março de 1954.

Os vizinhos: 4

Ainda na Avenida Conselheiro Furtado e, agora, na direção da Travessa Tupinambás, tivemos também relacionamento com a família Sampaio, da qual já falei, e que morava na esquina com a Travessa São Pedro. Vizinha a essa família, existia uma casa, cujo acesso era por intermédio de uma longa ponte de madeira, e cuja família vendia açaí. Anos depois, a família de Álvaro e Maria Cunha fez um bangalô, e mora nele até hoje. O Sr. Álvaro era sócio da Joalheria Sul Americana, localizada na Rua Conselheiro João Alfredo, na qual comprei meu anel de grau de engenheiro, em 1958, por 12 mil cruzeiros. Ao lado, morou a família do Dr. Canuto Azevedo, cuja esposa, a professora Irene Teixeira de Azevedo, ensinava na Escola Normal do Pará (ENP) a cadeira Desenho, que havia conquistado por intermédio de um Concurso Público, em 1943. Essa família tinha um casal de filhos, sendo que a menina Elza era colega da Madá naquela Escola. O rapaz, de nome Mário, foi meu amigo de infância, com quem brinquei muita bola no quintal de sua casa. No lado oposto da Conselheiro, entre as Travessas Apinagés e Tupinambás, tivemos relacionamento com outras famílias. Por exemplo, mais próximo da Tupinambás, morava a família Bahia, dona de uma casa de comércio na Rua Santo Antônio, e tinha dois filhos: o Agissé (que depois se tornou Oficial do Exército) e o Ademir (já falecido). Este foi meu colega no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR), que se localizava no Quartel ao lado da Basílica de Nazaré. Ainda nesse lado da Conselheiro Furtado e na direção da Apinagés, morava a família do João Afonso, vindo depois a família Braga: Sr. Hito e Dona Zélia, que tinha três filhos: Ivany (que se casou com o engenheiro Luciano Moraes, mais tarde meu colega de Magistério na EEP), Reinaldo e Wladimir. Com eles, morava também o sobrinho do Sr. Hito, o Milcíades, economista e hoje professor aposentado da UFPA. Depois, vinha um bangalô onde morava a família do Heber Monção, hoje conceituado médico pediatra, cuja mãe era muito amiga da tia Luzia. Em seguida, vinha a casa onde morava a família Barata, cujo pai, Jairo Barata era dentista. Ele era casado, em segundas núpcias, com a Sra. Maria de Nazaré (“Marita”) Monteiro Barata (já falecida), irmã do Waldir João da Silva Monteiro (engenheiro agrônomo), Walber da Silva Monteiro (advogado) e Walcyr da Silva Monteiro (escritor). Do primeiro casamento, o Dr. Jairo, como o chamávamos, teve os filhos Roberto Augusto Xavier Barata e Luís Edmundo Xavier Barata (hoje Oficial reformado da Aeronáutica). Lembro-me de, muitas noites, conversar com a mãe do Dr. Jairo, Dona Dalila, na porta da casa deles. Aliás, a Dona Dalila era descendente da família imperial brasileira Orleans e Bragança. Seu casamento com um plebeu tornou-a plebéia. Registro que, muitos anos depois, moraram nessa casa meus cunhados Antero e Marcionila (“Marcinha”). Ao lado do Dr. Jairo, morou a família Paiva, cujo pai trabalhava na Serraria do pai do Francisco Martins, esposo da Isaura Cruz, a quem já me referi. A família Paiva Rodrigues, seu Abílio e Dona Éster, tinham vários filhos: Abílio (já falecido, era um alto funcionário do Banco do Brasil), José, Guilherme, Orlando, Oscarina, Tereza e Maria. O José, que foi meu grande amigo de infância, depois de formado advogado, tornou-se um importante funcionário do antigo Banco de Minas Gerais. Também nessa casa, joguei muita “pelada”.

As “peladas” e as “lutas livres”

Aliás, é oportuno dizer que as “peladas” que jogávamos na casa dos Paiva, bem como nas demais casas de amigos de infância, e, também, nos campos de clubes do subúrbio paraense (Liberto, na Padre Eutíquio com a Travessa Caripunas, São Domingos, na Rua do Jurunas com a Travessa Tamoios, e o Imperial, na Travessa Conceição, próximo do Jurunas) ou em outros campos (Radional, na Estrada Nova, e o do então Instituto Agronômico do Norte, no Marco), eram com uma bola conhecida como “pneu”. Este era formado de gomos (retângulos alongados com bordas curvas) de couro e costuradas. Nele, havia uma abertura, com alguns furos, e que era fechada com um fio, também de couro (cadarço), por onde passava a câmara de borracha, com um bico. Depois que essa câmara era cheia, com uma bomba de ar usada para encher “pneus” de bicicleta, o bico era empurrado para dentro, através da abertura, e esta era fechada com o aperto do cadarço. É claro que, depois de cheio, o “pneu” ficava com uma intumescência, provocada pelo recolhimento do bico, que ficava sob a capa de couro, e, quando ela atingia as cabeças dos jogadores, doía bastante. Depois, com o progresso tecnológico, os novos “pneus” apresentavam apenas um furo no couro, por onde era injetado ar, com um bico especial que se adaptava ao bico da bomba de ar. Muito mais tarde, quando estudei Geometria, aprendi que a feitura dessas “bolas de futebol” decorre de um complicado problema geométrico (de Topologia Combinatória), qual seja, o de como cobrir uma superfície esférica, de geometria não-Euclidiana, com figuras geométricas planas (gomos, pentágonos, hexágonos, etc.), de geometria Euclidiana. É óbvio que nós, os “peladeiros”, e certamente os jogadores de futebol profissional não precisávamos de conhecer essa sutileza geométrica para ter um bom desempenho em campo. Eu era um “quase-perna de pau” que, no entanto, sabia chutar o “esférico” com os dois pés. Aliás, eu gostava de jogar sempre como “ponta esquerda”, hoje caracterizada pela “camisa 11”. Será que minha postura política “esquerdista”, que assumi posteriormente, tem origem atávica?

Um outro fato relativo a essas peladas e que me marcou muito foi o ocorrido em um jogo no campo da Radional. Em um certo instante dessa partida eu recebi uma bola na linha média do time adversário e mandei um petardo com o pé esquerdo. A bola chocou-se com a esquina esquerda da trave, a famosa “gaveta”. Talvez se tivesse feito o que seria um “golaço”, não estaria falando dele agora. Esse fato marcou-me pois, conforme descobri muitos anos depois, ele se relaciona com uma postura que tem sempre me acompanhado na vida, que é a minha satisfação de saber que tenho “a possibilidade de fazer alguma coisa”. É a potência de Aristóteles. O ato Aristotélico me intimida, uma vez que, para realizá-lo, em meu entendimento, é necessário ter coragem para tal. Aliás, como o ato de coragem tem um preço, sempre relutei em pagar, a não ser em situações-limite. Terei oportunidade de falar dessa minha covardia limitada no decorrer desse testemunho de minha vida.

Ainda com relação a esses campos de futebol em que joguei minhas “peladas”, quero recordar as “Lutas-Livre” que aconteceram no campo do Liberto, começo da década de 1950, às quais quase não assistia pois não tinha dinheiro para comprar a entrada. Apesar disso, fui a algumas delas em companhia de meu estimado amigo Hélio Serra, que sempre entrava nessas lutas levado pelo primo de sua mãe, Abel Figueiredo, que era Deputado Estadual e Presidente da Assembléia Legislativa do Estado do Pará. Quando não assistia a alguma dessas lutas, eu acompanhava o resultado pelos jornais da época: Folha do Norte, Folha Vespertina, A Província do Pará e A Vanguarda. Grandes representantes desse tipo de luta participaram delas. Por exemplo, os estrangeiros: “Leão de Portugal” (português), “Bey Ulsemer” (peruano), “Mesnick”, e “Gigante de Memel”; o carioca “Tatu”; e os paraenses: “Gigante de Ébano”, “Gato Selvagem”, “Demônio Louro” e seu irmão “Lourinho”. Recordo-me de uma exibição de força realizada pelo “Leão de Portugal” ao puxar, com os dentes, um veículo pesado no Largo do Relógio. Recordo-me, também, de, anos depois, cruzar com o “Bey Ulsemer” em vários locais de Belém, pois ele decidiu ficar morando nessa cidade depois que acabaram essas lutas. É oportuno destacar que os belenenses sentiram orgulho do “Gigante de Ébano” quando ele doou sangue para salvar a vida do então Prefeito de Belém, o médico Lopo de Castro, por ocasião de um trágico acidente que este sofreu.

Os vizinhos: 5

Continuemos com os vizinhos da Avenida Conselheiro. Ao lado da família Paiva, vinha a família Rezende, seu Manoel e Dona Helena, cujos filhos eram o Antônio (hoje, aposentado do Banco do Brasil), o Manoel (“Neném”, hoje, médico) e a Margarida. Ainda nesse lado da Avenida Conselheiro, porém no quarteirão entre a Travessa Apinagés e a Avenida Padre Eutíquio, tive relacionamento com a família Lobato, cujos filhos eram: José, Jane e Mário. O José, hoje engenheiro aposentado da PETROBRÁS, e morando no Rio de Janeiro, foi meu colega no CPOR; a Jane trabalhou na EEP, quando eu lá ensinei, e o Mário (hoje, médico) foi meu grande companheiro na época das famosas Balas América.

(As Balas América era um tipo de bombom envolvido por “figurinhas” que deveriam ser coladas em um álbum. Mário me deu muitas “figurinhas difíceis”, pois, para adquiri-las, era necessário comprar muitas delas, já que a sua “dificuldade” decorria da baixa freqüência com que eram oferecidas aos colecionadores. Dessas “figurinhas”, lembro-me de algumas famosas: “Cobra Coral”, “Macaco no Milharal”, “Olavo Bilac”, “Sede da Central do Brasil”, etc. Recordo-me, perfeitamente, da felicidade que tive quando, ao comprar uma dessas Balas na Sorveteria Delícia, que ficava na Esquina das Avenidas Conselheiro Furtado e Padre Eutíquio, ao lado da Barbearia do Seu Souza, vi que se tratava de uma dessas “figurinhas difíceis”: a “Sede da Central do Brasil”. Quando o álbum era cheio, o autor da façanha recebia brindes. Não me lembro de haver completado o meu álbum. É oportuno registrar que o Mário auxiliou o saudoso amigo, o médico Ronaldo Fonteles, quando este operou minhas amídalas, em fevereiro de 1966).

Meus irmãos, meus tios e primos e suas famílias

Segue abaixo, um resumo da vida de meus irmãos, tios e primos.

Irmão: 1. Luiz (“Corumbá”)

Luiz nasceu, em 1923, de um relacionamento de meu pai antes de ele casar com minha mãe Rosa. Não conheci sua mãe, que era negra. Ele tinha a pele morena, mas seus cabelos eram lisos. Vivia com uma senhora, também de cor negra, a Dona Maria, e moravam na Rua Conceição, no Bairro da Cremação; não tiveram filhos. Era eletricista da antiga Pará Electric, uma firma inglesa que gerava energia e controlava o transporte coletivo (bondes) de Belém. O “Corumbá” tinha um grande orgulho de seus semi-irmãos. Lembro-me bastante dele, sempre descalço e com a bainha da calça enrolada, a levar eu e a Maria, na Cremação, para mostrar aos seus amigos, principalmente aos seus colegas do time aspirante do clube Norte Brasileiro, do qual era seu goleiro. Lembro-me, também, de ele dormir, algumas vezes, junto comigo e com o Antônio, em redes armadas na sala de nossa casa. Seu relacionamento com o meu pai era sempre conflituoso, pois ele bebia muita cachaça. Ele tinha um grande apreço por sua (nossa) avó Tereza. Quando esta morreu, no dia 04 de novembro de 1952, por ocasião de seu enterro, que saiu de nossa casa, na Travessa São Pedro 421, ele chorava convulsivamente e pedia que ela o levasse logo dessa vida cruel. Ele morreu, de cirrose hepática, no dia 31 de dezembro daquele mesmo ano.

Pará Electric

Creio ser oportuno dizer alguma coisa de minhas lembranças sobre a Pará Electric. Ela foi instalada em Belém, em 1898. Seus bondes elétricos circulavam por vários bairros de Belém. Perto de casa, circulavam os das linhas Circular Interna e Circular Externa. Existiam alguns bondes de luxo, os chamados “balangandãs”. Para o transporte de maior número de pessoas, essa Companhia ligava dois bondes, chamado pelo povo de “bonde cachorro”. Para evitar problema de troco, a Pará Electric vendia uma espécie do “Vale Transporte” de hoje, apelidado pelo povo de “boró”. Esses bondes eram movidos por eletricidade, gerada por essa Empresa, distribuída por uma rede aérea, e transmitida ao bonde por uma lança (um espigão), articulada na parte superior do bonde, e tendo uma carretilha (roldana) em sua extremidade que deslizava naquela rede. Era motivo de alegria para as crianças ver quando essa roldana escapulia da rede e o bonde parava. Aí, então, o cobrador descia e, por intermédio de uma corda, creio que de aço, e sempre presa à lança, a repunha em contato com a rede. Também era comum o acidente provocado pelos bondes, por ocasião da desatenção das pessoas quando desciam deles. Lembro-me de dois desses acidentes. Um deles aconteceu com um membro da família Bahia, que morava na Avenida Conselheiro Furtado. Ao tentar descer do bonde, ainda em movimento, foi para baixo dos trilhos e, então, foi cortado pelas rodas do veículo. Teve morte imediata. Isso aconteceu por volta de 1945, pela parte da manhã. Lembro-me bem desse acidente, pois, quando voltava da aula do Professor Lobo, aproximadamente às onze e meia, fui até a esquina da São Pedro com a Conselheiro, local em que ocorreu o acidente. Não tive coragem de ver o corpo estendido na rua depois de retirado dos trilhos. O outro acidente aconteceu com um vizinho nosso, da Travessa São Pedro, o bombeiro “Pecó”, que teve a sola de um de seus pés cortada pelas rodas de um bonde.

No final da década de 1940 os bondes da Pará Electric foram substituídos por ônibus. Essa substituição decorreu do fato de essa Companhia não se interessar mais em investir no melhoramento desse tipo de transporte, pois a sua capacidade de gerar energia elétrica para Belém estava se esgotando. Essa incapacidade era sentida pelos belenenses, pois, além de a luminosidade das lâmpadas ser fraca (chamávamos de “tição” para a luz que vinha delas), a interrupção de seu fornecimento era uma constante. Para contornar essas dificuldades, os usuários lançavam mão de outros meios de iluminação. Estes, que dependiam do poder aquisitivo de quem os comprava e que acredito ainda existir em muitas regiões interioranas brasileiras, são do tipo lampião a óleo, que funciona pela queima de uma mecha (pavio), normalmente feita de material fibroso para permitir a ascensão (por capilaridade) do combustível utilizado. No entanto, a intensidade da luz emanada dessa queima depende de inovações tecnológicas agregadas a esse velho lampião. Assim, quando a mecha é substituída por uma camisa incandescente produzida por petróleo vaporizado à pressão, protegida por uma manga de vidro, resulta o petromax ou “candeeiro Kitson”, inventado em 1885. Por sua vez, quando a mecha é apenas protegida por uma manga de vidro, temos o candeeiro; se não há proteção, resulta a lamparina. Além desses três meios de iluminação, existia, também, o carbureto. Registre-se que esse composto químico era bastante usado nas oficinas que trabalhavam (e acredito que ainda trabalham) com solda de metais, pois, ao ser colocado em água, desprende o gás acetileno que, em contato com o oxigênio do ar, se torna inflamável e, ao inflamar-se, produz luz. É oportuno destacar que o carbureto também foi usado para iluminar os faróis dos carros, antes da bateria elétrica, conforme me lembrou meu estimado amigo o Sr. Alfredo José Salame, de quem já falei em outro local destas Memórias.

Irmão: 2. Antônio

Antônio nasceu no dia 19 de maio de 1927, no Hospital da Ordem Terceira de São Francisco, aos cuidados do médico Agostinho Monteiro. Ele estudou os primeiros dois anos do então Curso Primário com as professoras Lúcia e Natércia, em uma Escola localizada na Rua Arcipreste Manoel Teodoro, entre as Travessas São Pedro e São Mateus (hoje, Avenida Padre Eutíquio). A conclusão desse Curso, do terceiro ao quinto anos, foi realizada no Instituto Luso Brasileiro do professor Raimundo Firmiano Lobo, no Largo da Trindade. Para poder estudar na Escola Prática de Comércio [depois, Escola Técnica de Comércio (ETC)], fez o Exame de Admissão no então Grupo Escolar “José Veríssimo”, situado na esquina da Avenida Conselheiro Furtado com a Rua Presidente Pernambuco. Nessa Escola, localizada na então Avenida 15 de Agosto (hoje, Presidente Vargas) com a Rua Santo Antônio, concluiu o Curso de Guarda Livros, aos 17 anos de idade, em 1944, no mesmo ano em que fez o Tiro de Guerra, para receber o Certificado de Reservista de Terceira Categoria. Quando estava para obter o diploma de Perito Contador, ainda na ETC e em 1947, abandonou os estudos para se casar com Judith Pereira, filha de José Bernardino Pereira e Maria da Costa Pereira, donos do Posto Pescadinha, localizado na Avenida Conselheiro Furtado, próximo à Padre Eutíquio.

Devido às dificuldades financeiras de nossos pais (papai Eládio era sapateiro e a mamãe Rosa era lavadeira), o Antônio começou a trabalhar desde cedo, aos 11 anos de idade e logo que entrou para a ETC, com o despachante Antônio Gonçalves Navegantes. Contudo, logo depois foi trabalhar com o Sr. Pinho, que era proprietário da Casa Baiana, uma casa que vendia artigos masculinos, situada na Rua Santo Antônio. Dificuldades em se adaptar nesse novo emprego levaram-no a voltar ao ramo de despachante, passando então a trabalhar com o despachante João Florentino da Gama, na Travessa Frutuoso Guimarães.

Quando estudava na ETC, fez uma boa amizade com o Sr. Camargo, então Inspetor de Alunos dessa Escola, que o convidou para ser seu ajudante na Carteira de Despacho da Companhia Americana THE TEXAS COMPANY (hoje, Texaco do Brasil S. A.), onde trabalhou por nove anos e cinco meses. A sua saída dessa Companhia deveu-se à regra interna de ela não deixar nenhum funcionário completar dez anos para não obter estabilidade. Devido ao seu grande conhecimento sobre o despacho marítimo de mercadorias (nessa época não existia a Estrada Belém-Brasília, e, portanto, o comércio paraense era apenas marítimo), foi convidado para trabalhar com o Sr. José Dias da Costa Paes, que acabara de criar a Dias Paes Representações Ltda. Nessa firma, trabalhou por cerca de 19 anos. É oportuno registrar que, nesse local, foi colega de um amigo de infância, o Augusto Barata que, mais tarde, seria cantor da Rádio Marajoara.

Na firma Dias Paes, o Antônio tomava conta da Carteira de Contabilidade e tratava das prestações de contas do Lloyd Brasileiro. Quando esta passou a ser gerida pela Agência Marítima Internacional, sob a gerência de Miguel Machado da Rocha, Antônio passou a trabalhar nessa Agência, localizada na Rua Gaspar Viana. Contudo, um incêndio ocorrido no prédio que a abrigava fez o Sr. Rocha desistir desse gerenciamento. Em vista disso, o Lloyd passou a ser gerenciado por O. M. Franco & Cia. Ltda., sob os cuidados de Antônio Brito e Anselmo Franco. Nessa firma, meu irmão trabalhou por cerca de 3 anos, quando o Lloyd deixou essa Agência.

Com toda essa experiência como despachante, Antônio resolveu, junto com seu primogênito, Antônio Filardo Bassalo Filho (“Toninho”), formar a sua própria empresa, a Balonave: Bassalo Navegação, Comércio e Representações Ltd, que fazia despachos no Cais do Porto de Belém. Contudo, quando o Porto de Belém foi privatizado, em 1989, por dificuldades para cumprir as exigências para atuar no Porto, como, por exemplo, possuir duas empilhadeiras de três estágios cujo valor estava acima das possibilidades financeiras dessa firma, Antônio resolveu fechá-la e viver apenas de sua pequena aposentadoria.

Do casamento de Antônio com a Judith, que faleceu em 23 de dezembro de 1994, resultou os filhos que, por sua vez, também constituíram famílias, conforme descreverei a seguir. Toninho (comerciante), nascido em 17 de março de 1950, casou-se com Mariceli Silva, em 20 de outubro de 1971, com a qual teve os seguintes filhos: Fabrício, nascido em 21 de abril de 1975, Fabíola, nascida em 10 de janeiro de 1979 e Flávia, em 01 de janeiro de 1981. Fabrício, Capitão da Polícia Militar do Estado do Pará, casou-se com a economista Patrícia da Cunha Abdelnor, em 23 de maio de 2004, e tem a filha Maria Luisa Abdelnor Bassalo, nascida em 04 de janeiro de 2007. No segundo casamento com Ana Lúcia Campos e ocorrido em 8 de dezembro de 1987, Toninho teve mais dois filhos: Luciano, de 16 de março de 1989 e Adriano, de 8 de agosto de 1994. Em seguida, nasceu a Rosângela (culinarista), em 13 de março de 1951. Casou-se com Carlos Augusto Botelho, em 30 de janeiro de 1972, e teve a filha Kristiany, de 8 de abril de 1972 que, por sua vez, teve a filha Giovanna, nascida em 22 de novembro de 1995, do casamento com Homero de Souza Cerquinho Junior. O terceiro filho do Antônio foi o Antônio Paulo (artista plástico e professor de Artes Plásticas), nascido em 2 de maio de 1952 e falecido em 14 de setembro de 2005, teve um filho de nome Gabriel, de 10 de dezembro de 1982, do casamento com Teresinha de Fátima Ribeiro. O Fernando (operário especializado), que nasceu em 4 de junho de 1953, tem dois filhos: Rafaela e Carolina, resultantes de seu casamento com Maria Carmelita, e nascidos, respectivamente, em 24 de fevereiro de 1988 e 20 de fevereiro de 1990. O quinto filho do Antônio, o Roberto (comerciante), nasceu em 25 de dezembro de 1955 e, antes de casar, ele teve um relacionamento com Edna Abreu que resultou no nascimento de Gleydson, ocorrido em 01 de outubro de 1978. Roberto casou-se com Simone Barata, em 1979. Dessa união, nasceu Dayvs, em 13 de dezembro de 1979 e Roberta, em 18 de novembro de 1980, que foi criada com os avós. O Dayvs casou-se com Kelly Nazaré da Silva, em 19 de novembro de 1981, teve dois filhos: Melissa Souza Bassalo, de 6 de junho de 2002 e Manuela Souza Bassalo, de 18 de outubro de 2003, que moram em Boa Vista junto com os pais. De seu segundo casamento, com Sônia Alvarenga, Roberto ganhou, em 31 de julho de 1993, a filha Vitória. Guilherme, gerente de vendas (apelidado por mim de "Carequinha"), o sexto filho, casou-se com Lizete Martins e teve, em 25 de fevereiro de 1986, o filho de nome Leonardo. Em segundas núpcias com Shirley Costa, Guilherme teve um outro filho, de nome Guilherme, de 6 de dezembro de 2000. Os dois últimos filhos do Antônio foram: Roseneide (bióloga), nascida em 22 de setembro de 1961, teve os filhos Luna e Igor, nascidos, respectivamente, em 11 de março de 1988 e 12 de abril de 1991, de seu casamento com Valdo Vieira; e Rosana (assistente social), nascida em 5 de fevereiro de 1962, casou-se com Denis Pontes e teve os filhos Ian, de 20 de outubro de 1988 e Davi, de 27 de outubro de 1991. Além desses oito filhos, Antônio e Judith tiveram mais um, o André Rami (advogado), que nasceu em 10 de novembro de 1971, casou-se com Vânia Amanajás, de quem teve o filho André Bassalo Filho, nascido em 30 de março de 1998. Por fim, o Antônio é torcedor fanático do Clube do Remo, em Belém do Pará, e do Fluminense Football Club, no Rio de Janeiro.

Creio ser oportuno dizer que o Antônio e a Judith, um pouco depois de seu casamento (não oficializado), moraram algum tempo, em uma pequena casa, inicialmente, de chão batido, composta de uma sala (que funcionava, também, como cozinha e sala de jantar) e dois quartos, construída pelo papai, e onde nasceram quase todos os seus filhos, com exceção do Toninho.

Durante essa permanência em casa, houve uma relação pouco amistosa entre a Judith e a minha mãe. No entanto, apesar disso, seus filhos sempre foram tratados com bastante carinho por mamãe e, também, por meu pai. O papai, por exemplo, tinha um grande apreço pelo “Toninho”, conforme me relatou o Antônio. Ele sempre dava dinheiro para ele comprar peteca. Contudo, quando o “Toninho” chegava em casa chorando porque havia perdido algumas petecas nos jogos com seus colegas, o papai saia e ia tomar dos ganhadores as petecas perdidas pelo primeiro neto. O Roberto, por sua vez, ajudava o papai na confecção dos solados dos sapatos que consertava. Ele batia sola, esticando-a ao máximo possível para agradar meu pai; derretia breu para ser usado no fio de costura desses solados; e dava o acabamento final nesses solados, usando tinta preta. Aliás, foi o Roberto quem percebeu as primeiras manifestações da doença de Alzheimer que matou meu pai. Várias vezes ele presenciou o esquecimento característico dessa doença, quando um cliente perguntava para o papai se o sapato que trouxera para consertar já estava pronto. Como o papai não se lembrava qual era, pedia que o cliente encontrasse o sapato dele, cliente, dentre os vários que havia consertado.

A relação entre o Roberto e o papai foi tão intensa que, até hoje, ele lembra dele com muita ternura. Assim, em recente conversa comigo, o Roberto me disse que tem gravado em sua memória a imagem do papai vestido de camisa de lona verde, em forma de V, completada com uma bermuda feita de saco de açúcar, cujo lado esquerdo era todo amassado, de tanto o papai limpar as mãos da cola de sapateiro que utilizava nos consertos dos sapatos. Também faz parte dessa memória a visão de seu avô, em seu banquinho de trabalho, manipulando as ferramentas de sapateiro: o martelo “cabeção”, o pé de ferro, as facas de sapateiro bem amoladas (das quais tinha muito ciúme) e a sovela. Ele também lembra de o papai chegar, por volta da sete e meia da noite, do “bordejo” (na linguagem do papai) que fazia até a Praça Batista Campos, no final da tarde e começo da noite. En passant, registro que, enquanto criança, cansei de levar aquelas facas para amolar na Cutelaria Tancredi, que ficava na Rua Senador Manoel Barata, próximo à então Avenida 15 de Agosto (depois, Presidente Vargas).

De minha mãe Rosa, o Roberto lembra das macarronadas dominicais preparadas por ela, assim como dos deliciosos caribé, sopa de feijão e bolo de milho que a mamãe fazia, diariamente, e os distribuía com muito amor, não só para ele, mas, também, para seus irmãos. Da Madá, o Roberto tem uma recordação especial pois, além de ele ser seu aluno no Grupo Escolar “José Veríssimo”, também o foi no Externato “São Judas Tadeu”, que ela mantinha em nossa casa. Nessa escolinha particular da Madá, o Roberto recebia um privilégio especial toda a vez que ela, ao fazer um lanche com a mamãe, sempre trazia um pouco para ele, o que motivava um certo ciúme de seus colegas. Roberto também lembra da proteção que sua tia Maria lhe dava sempre que a Judith lhe aplicava algum corretivo.

Por fim, quero registrar um aspecto humano da relação conflituosa entre a mamãe e a Judith. Apesar de sempre brigarem, minha cunhada, enfermeira de profissão, não largou o leito da mamãe por ocasião em que ela esteve internada no Hospital da Beneficente Portuguesa, para curar-se de uma infecção de tétano, por volta de 1951. Aliás, a internação da mamãe nesse Hospital deveu-se à interferência do pai da Judith, que era um de seus beneméritos. Infelizmente, a relação conflituosa entre mamãe e Judith, citada acima, dificultou que os filhos do Antônio pudessem ter a infância e a adolescência compartilhadas com seus primos: os meus filhos e os da Maria. Registro que a Madá não teve filhos, e que os filhos do Mário nasceram no Rio de Janeiro, como veremos a seguir.

Irmã: 3. Madalena

Madalena (“Madá”) nasceu no dia 10 de julho de 1929 e morreu no dia 06 de janeiro de 1999. Meses depois de ficar viúvo, seu marido Acrísio Bittencourt voltou para a sua terra natal, interior do Maranhão, aonde veio a falecer, em 16 de abril de 2004. Como só decidi escrever sobre a minha vida no meio de 2004, não tive a preocupação de perguntar a eles sobre suas vidas enquanto estavam vivos. Em vista disso, as informações aqui registradas decorrem apenas de minhas lembranças, as de meus irmãos e as das professoras Maria de Jesus Vasconcelos Mendonça, Hilma Barros e Lucymar de Jesus Fernandes, e de seu ex-aluno Carlos Mouzinho, hoje professor da Escola de Primeiro Grau “Placídia Cardoso”, aos quais muito agradeço nesta oportunidade. Como o papai sempre se preocupou em oferecer o melhor para a sua família, e considerando que seu primeiro filho havia nascido no Hospital da Ordem Terceira de São Francisco, aos cuidados do médico Agostinho Monteiro, a Madá também foi aparada por ele. Ela estudou os primeiros dois anos do então Curso Primário com as professoras Lúcia e Natércia, com quem o Antônio havia também estudado, e completou esse Curso no Instituto do Professor Lobo, o mesmo no qual todos nós estudamos. A Madá entrou para a então Escola Normal do Pará, em 1943, e colou grau como Professora Normalista, em dezembro de 1947. (Aliás, a professora Maria de Jesus me contou que ela própria fez parte do Canto Orfeônico que cantou por ocasião dessa Colação de Grau.) Logo depois, ela começou a lecionar em casa, na Travessa São Pedro, para os filhos de nossos vizinhos. Primeiro, ela dava aula na mesa que ficava na varanda dessa casa. À medida que o número de alunos foi aumentando, ela criou o Externato “São Judas Tadeu”, que funcionava em uma sala de aula e que o papai ajudou-a a construir na lateral de nossa casa. Por essa ocasião, lembro-me de auxiliá-la na solução de problemas de Aritmética e Geometria. Quando ela casou, em 1961, continuou a lecionar em casa. Dentre os vários alunos que teve, registro os meus dois cunhados: Teté e Geraldo. Este, apesar de ser meu cunhado, sempre recebia castigos da Madá (reguadas), toda vez que esquecia as lições de casa que ela lhe passava. Por outro lado, ele adorava a sopa que a mamãe preparava para a família. Ela também ensinou todos os filhos do Antônio e os da Maria. Infelizmente ela não ensinou os meus filhos Jô e Ádria, uma vez que, sendo eu professor da UFPA, eles estudaram no então Colégio de Aplicação da UFPA, hoje Núcleo Pedagógico Integrado (NPI).

O primeiro emprego público da Madá foi a de professora no então Grupo Escolar “Placídia Cardoso” (hoje, Escola Estadual de 1o. Grau “Placídia Cardoso”, conforme registrei acima) que fica na Rua dos Tamoios, entre as Travessas Monte Alegre e Breves, e cuja Diretora era a professora Geórgia Barata. Esse emprego foi conseguido pela grande amiga da Madá, a professora Lucymar Fernandes. As duas foram nomeadas professoras daquele Grupo, em 1951, por escolha da própria Diretora Geórgia. Além da Madá, Hilma, Lucymar e Maria de Jesus, também começaram a ensinar nesse Grupo as professoras Célia Maia, Denise Guilhon, Esmeralda Navegantes e Ilza Melo. Depois de cerca de 10 anos em que trabalhou nesse Grupo, a Madá foi lecionar no Grupo Escolar “José Veríssimo”, na esquina da Avenida Conselheiro Furtado com a Rua Presidente Pernambuco. Ela ensinou nesse Grupo, com freqüência integral, de 1962 até 1978, quando então se aposentou. Por ocasião em que ela ensinou no “José Veríssimo”, conforme me contou a professora Maria Heloisa Matos Guerra (a quem agradeço essa informação), que foi sua Diretora, de 1962 até 1975, a Madá sempre foi querida por seus diversos alunos da 4a. Série, bem como por seus respectivos pais.

Creio ser oportuno dizer que a Madá sempre foi receosa com relação a tentar novas situações. Por exemplo, depois de três anos de trabalho no “Placídia Cardoso”, houve um concurso para o então SNAPP. A amiga Lucymar fez tudo para que elas fizessem esse concurso. Segundo recentemente contou-me a professora Lucymar, com medo de ser reprovada e ficar em situação difícil perante seus pais e amigas, a Madá não fez o concurso. A Lucymar fez e passou. De outra feita, sua outra grande amiga Maria de Jesus também fez tudo para levá-la para a Escola Tenente “Rego Barros” para ensinar a 4a. Série do 1o. Grau. Como a Madá foi sempre professora do Curso Primário e de Admissão, ficou com medo de fazer uma reciclagem para adaptar-se ao ensino ginasial e recusou o convite. Por fim, registro que a Madá não teve filhos de seu casamento com o Acrísio.

Irmão: 4. Mário

Mário nasceu no dia 05 de maio de 1933, também sob os cuidados do Dr. Waldemar de Freitas Ribeiro, na Maternidade da Ordem Terceira de São Francisco. Em 1941, iniciou o Curso Primário no Instituto Luso Brasileiro, do professor Raimundo Firmiano Lobo. No começo de 1946 prestou Exame de Admissão para o Colégio Estadual “Paes de Carvalho” (CEPC), no qual concluiu o Curso Ginasial em 1949, e o Curso Científico, em 1952. Depois de estudar, em 1953, o primeiro ano do Curso de Farmacêutico, entrou para a Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará (FMCP), em 1954, obtendo o diploma de médico, em 08 de dezembro de 1959, quando essa Faculdade já pertencia à Universidade Federal do Pará (UFPA). Entre agosto de 1958 e dezembro de 1959, foi Auxiliar-Acadêmico-Interno no Hospital de Pronto Socorro do Município de Belém do Pará. Por ocasião da realização de seu Curso de Medicina, Mário procurou sempre melhorar a sua formação profissional. Com efeito, em novembro de 1956, realizou o Curso de Extensão Universitária sobre Anatomia do Abdômen, na FMCP. Nessa mesma Faculdade, participou do Curso Livre: Temas de Cardiologia, no período de 6 de agosto a 10 de setembro de 1958. No ano de sua formatura, 1959, realizou vários Cursos: em fevereiro, o Curso de Aperfeiçoamento de Gastroenterologia Cirúrgica, no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP); em maio, o Curso sobre Cardiopatias na Infância, patrocinado pela Sociedade Paraense de Pediatria; em julho, o Curso Livre Noções de Eletrocardiografia e o Curso sobre Temas Livres de Angiocardiologia, ambos patrocinados pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, Seção do Pará.

Creio ser oportuno relatar que o Mário foi influenciado para fazer Medicina pelo seu padrinho de batismo, o Dr. Paulo Nunes Avelino, filho do casal Eunápio e Idalia Avelino, que moravam na Rua Arcipreste Manoel Teodoro, perto de nossa casa, localizada na Travessa São Pedro. Desde pequeno, o Mário viveu nas duas casas até se transferir para o Rio de Janeiro a fim de fazer a sua Especialização Médica. Até hoje ele mantém um vínculo afetivo com os descendentes dessa família.

Desse modo, entre 1960 e 1962, ele realizou sua Residência Médica (RM) no Hospital “Pedro Ernesto” (HPE) [hoje, Hospital Universitário “Pedro Ernesto” da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (HUPE/UERJ)], que à época pertencia à Prefeitura do Distrito Federal, sob a supervisão do professor Dr. Júlio Martins Barbosa, que mais tarde seria seu padrinho de casamento, junto com Hilda Nunes Avelino, que também era sua madrinha de batismo. Durante esse período como Médico Residente, aproveitou para melhorar a sua formação médica. Assim, em 1960, entre março e junho, realizou, no Centro de Estudos da Secretaria de Saúde do Estado da Guanabara, os seguintes Cursos: Equilíbrio Eletrolítico e seus Distúrbios no Adulto (21/03-01/04); Radiologia (7/04-9/06); Cirurgia Infantil (maio). Nessa mesma Secretaria, em 1962, fez parte de um grupo de médicos que ministrou o Curso de Treinamento Funcional Descentralizado em Enfermagem Médica e Cirúrgica. No final de 1962, com a passagem (em agosto desse mesmo ano) do HPE para a Universidade do Estado da Guanabara, como Hospital Escola, foi admitido como médico, continuando a trabalhar no mesmo serviço (2a. Clínica Médica) do Dr. Júlio Barbosa, até o falecimento deste médico, em 1966, quando essa Clínica foi extinta. A partir daí, foi transferido para o Serviço de Assistência Médica ao Servidor (SAMS); posteriormente, com as várias transformações na estrutura do Serviço Médico da UERJ, foi lotado na atual Divisão de Saúde do HUPE (DISHUPE), onde se aposentou.

Concomitantemente, em 1962, Mário foi aprovado em Concurso Público do então Estado da Guanabara, como Médico Tisiologista, indo trabalhar no Posto de Saúde do 9o. Dispensário de Tuberculose (hoje, Centro Municipal de Saúde “Professor Milton Fontes Magarão”), na Avenida Amaro Cavalcante, no Méier, Zona Norte, e alguns anos mais tarde foi transferido para o Departamento Geral de Saúde Pública, onde se aposentou em 1989.

Em 1975, a fusão do Estado da Guanabara com o Estado do Rio originou o Estado do Rio de Janeiro. Em vista disso, as ações de Saúde Pública ficaram subordinadas ao Município do Rio de Janeiro, passando Mário, dessa forma, a integrar o quadro de servidores municipais.

Durante sua atuação no HPE/HUPE, no Município do Rio de Janeiro e no então Estado da Guanabara, participou do XIII Congresso Nacional de Tuberculose e VIII Congresso Brasileiro de Doenças do Tórax, ocorridos em Belém do Pará, em outubro de 1966; realizou o Curso de Medicina do Trabalho (1976) promovido pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); participou de trabalhos científicos sobre Medicina do Trabalho e de Campanhas de Vacinação no Município do RJ. Além disso, exerceu vários cargos de confiança, tais como chefias e assessoramentos. Foi, também, substituto automático do Diretor da Divisão de Tuberculose e da Divisão de Pneumologia Sanitária do antigo Estado da Guanabara e do Município do Estado do Rio de Janeiro, respectivamente. Mário foi homenageado com a medalha do Mérito Clementino Fraga (1974) e recebeu os Diplomas de Bons Serviços, em 1973 e 1982, pelo Governo do Estado da Guanabara, e de Honra ao Mérito, pelos 30 anos de serviços prestados ao HUPE, em 1992.

Em 1976, foi aprovado em outro concurso público, desta vez no então Instituto Nacional da Previdência Social (INPS) [hoje, Instituto Nacional da Seguridade Social (INSS)], para o Município do Rio de Janeiro na especialidade de Pneumologia. Contudo, os aprovados nessa especialidade nunca foram chamados para atuar. Em 05 de maio de 2003 foi aposentado em conseqüência de haver completado 70 anos de idade, depois trabalhar no HUPE por mais de 40 anos. Mesmo aposentado, participou de um Treinamento Profissional na área de Medicina do Trabalho, no período de julho a dezembro de 2003, treinamento esse realizado na DISHUPE, no período de julho a dezembro de 2003, e esteve trabalhando como Médico Contratado da UERJ, entre maio de 2004 e março de 2005. Mário é sócio da Sociedade Brasileira de Cardiologia e Oficial da Reserva (Arma Infantaria), depois de servir no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR), em Belém do Pará, entre 15 de dezembro 1953 e 25 de agosto de 1955.

Por ocasião em que o Mário trabalhava no então HPE, como médico residente, em 1960, conheceu Júlia Barreira de Freitas, com quem se casou em 26 de setembro de 1964. Lembro-me de que nossa tia paterna Luzia deslocou-se de Belém para o Rio de Janeiro a fim de participar desse casamento. Dessa união matrimonial, nasceram Mario Filardo Bassalo Filho, em 21 de julho de 1965, e Rosa Maria de Freitas Bassalo, em 11 de janeiro de 1969. Mario Filho (Mariozinho, como eu o chamo) deixou de se graduar em Química Industrial para dedicar-se ao exercício de sua profissão de Técnico Policial de Necrópsia, no Instituto Médico Legal “Afrânio Peixoto” da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro. Casou-se, em 06 de maio de 1995, com a fonoaudióloga Alessandra Maria Rebello Teixeira, nascida em 27 de maio de 1972, e tem dois filhos: Guilherme Teixeira Bassalo, nascido em 30 de dezembro de 1996, e Bernardo Teixeira Bassalo, em 30 de abril de 2004. Rosa Maria é Assistente Social, e da união com Wagner Alves da Motta nasceu Rodrigo Bassalo da Motta, em 21 de julho de 1992. Por fim, Mário é torcedor do Paysandu Sport Club, em Belém do Pará, e do Clube de Regatas Vasco da Gama, no Rio de Janeiro.

Irmã: 5. Maria José

A Maria nasceu meia hora depois de meu nascimento, ou seja, às 12 horas e 30 minutos do dia 10 de setembro de 1935, na Maternidade da Ordem Terceira de São Francisco, também sob os cuidados do Dr. Waldemar de Freitas Ribeiro. Sendo gêmeos, iniciamos juntos, em 1943, o Curso Primário no Instituto Luso-Brasileiro, do professor Lobo, conforme já registrei em outro artigo dessas minhas reminiscências. Contudo, enquanto eu fiz esse Curso em quatro anos, a Maria fez em cinco. Desse modo, ela somente entrou no CEPC em 1948 e concluiu o Curso Clássico, em 1955. Em 1956, prestou Exame Vestibular para a então Faculdade de Direito do Pará, na qual obteve o título de Bacharel em Direito, em 1963, quando essa Faculdade já havia se incorporado à então Universidade do Pará [hoje, Universidade Federal do Pará (UFPA)]. Nessa Faculdade, Maria conheceu Pedro Rosário Crispino com quem casou, em 22 de dezembro de 1962. Pedro recebeu o grau de Bacharel em Direito, em 1964.

Enquanto meu cunhado Pedro fez uma brilhante carreira como advogado [ele é hoje o Procurador Chefe do Ministério Público do Tribunal de Contas do Estado do Pará (TCE)], a Maria dedicou-se a tomar conta da família que acabara de constituir. Pedro, filho de imigrantes italianos (Egídia e Nicola), da mesma região onde nasceu minha mãe, Castelluccio Inferiore, na Província de Potenza, no sul da Itália, sempre foi e é um grande batalhador. Desde criança, ele e seu saudoso irmão Egídio ajudavam o pai na entrega de jornais e revistas. Como nós (Antonio, Madá, Mário e eu) já não morávamos com nossos pais, na Travessa São Pedro 421 (hoje, 851), Pedro e Maria, quando casaram, passaram a tomar conta deles, com todo o carinho emocional e material possível [Pedro, inclusive, derrubou a nossa antiga casa (descrita anteriormente), e construiu uma boa casa de dois pavimentos]. Além disso, Pedro também ajudou a criar seus meio-irmãos que nasceram do segundo casamento de seu pai, com Rosina Sovano. Sempre que foi solicitado, ajudou também meus irmãos Antônio e a saudosa Madá. Nesta oportunidade, quero agradecer ao meu estimado cunhado Pedro tudo o que fez pelos meus pais e, também, pela tia Luzia, que morou com ele até morrer em 17 de setembro de 1983. Meu pai Eládio morreu em 20 de abril de 1980, e minha mãe Rosa, em 28 de agosto de 1999. Por outro lado, Pedro e Maria sempre lutaram pelo bem de seus filhos e, também, pelo dos empregados que com eles trabalharam e ainda trabalham. Um exemplo típico é a presença da Dona Antônia Vinagre Alcântara, que cozinha para eles há mais de trinta anos.

Pedro e Maria têm cinco filhos. Rosa Egídia, nascida em 11 de outubro de 1963, é advogada e ex-professora de inglês e, no momento, é Procuradora concursada no TCE, desde 1993. Casou-se em 25 de junho de 1997 com o médico, especialista em Gastroenterologia, Ivonélio Calheiros Lopes Junior. O casal tem dois filhos: Enzo, nascido em 05 de maio de 2000 e Lisa, nascida em 02 de abril de 2005. O segundo filho chama-se Nicolau Eládio e nasceu em 24 de dezembro de 1964. É bacharel pela UFPA e Doutor em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), Procurador de Justiça do Estado do Amapá e professor adjunto da Universidade Federal do Amapá. Casou-se em 08 de janeiro de 1994, com Gláucia Porpino Nunes, bacharel em Direito, Promotora de Justiça do Estado do Amapá, com quem tem dois filhos: Gabriel e Rafaela, nascidos, respectivamente, em 19 de novembro de 1995 e 15 de outubro de 2002. Pedro, advogado e Promotor concursado do Ministério Público do Estado do Pará, desde 1994, é o terceiro filho do casal Bassalo Crispino; é meu afilhado. Ele nasceu no dia 27 de janeiro de 1966 e tem dois filhos: Pedro, nascido em 14 de novembro de 1996 e Maria Gabriela, nascida em 24 de maio de 1990, de sua união com a pedagoga Maria de Fátima Chaves de Lemos. O quarto filho de Pedro e Maria é a arquiteta e advogada Ana Rosa, nascida em 21 de julho de 1967. Divorciada do engenheiro civil Augusto de Almeida Mácola, com quem casou em 12 de setembro de 1991, tem uma filha Ana Luíza, nascida em 07 de agosto de 1996. Ana Rosa, arquiteta concursada (1993) do Ministério Público do Estado do Pará, é uma exímia bailarina e dirige a Escola de Dança Ballare, localizada na Avenida Padre Eutíquio 1454, de sua propriedade. Por fim, o caçula do casal é o Luís Carlos, nascido em 11 de janeiro de 1971, doutor em Física pela Universidade do Estado de São Paulo (UNESP) e professor Adjunto da UFPA. Casou-se em 08 de outubro de 1994, com Ângela Klautau, doutora em Física pela USP e professora adjunta da UFPA, depois de realizar um Concurso Público em 2002. O casal (Luís Carlos e Ângela) tem uma filha chamada Isabela, nascida em 30 de julho de 1998. Creio oportuno dizer que o Pedro, seus filhos Nicolau, Pedrinho, Luís Carlos, todos os seus netos, e seu genro Ivonélio, são torcedores fanáticos do Paysandu Sport Club.

Tias paternas: Luzia e Maria Lúcia

Eu tive duas tias paternas: Luzia e Maria Lúcia. A tia Luzia nasceu em 30 de setembro de 1912, em Puebles de Tribes, San Miguel de Vidueira, no noroeste da Espanha, perto de Santiago de Compostela. Ela veio para Belém do Pará, por volta de 1915. Como o papai era sapateiro, ela começou a aprender o ofício de costureira de calçados e, nesse ofício, trabalhou na Sapataria Sem Rival, do espanhol Isaac Garcia, localizada na hoje Avenida Padre Eutíquio, perto da Rua Senador Manoel Barata. Quando criança, recordo de ir várias vezes a essa Sapataria para ela comprar brinquedos para mim. Um deles, um revólver de brinquedo, foi comprado na Casa dos Presentes, que ficava na Manoel Barata, próximo da Travessa Campos Sales, onde hoje fica uma das Lojas Yamada. Lembro ainda de roupas que ela comprava para mim, bem como livros e material escolar. Às vezes, dia de domingo, ela gostava de tomar vinho, o que lhe provocava muito sorriso e vermelhidão nas faces. Sempre que eu fazia alguma traquinagem no CEPC, era ela quem ia resolver com o Diretor, conforme já registrei em outro artigo destas recordações. Quando a Sem Rival fechou, ela recebeu como indenização a máquina de costura na qual trabalhava e, com ela, passou a trabalhar com o Sr. Cláudio. Embora tenha namorado com Sr. Raimundo, que era barbeiro, ela morreu solteira, no dia 17 de setembro de 1983.

A tia Maria Lúcia nasceu no dia 15 de abril de 1906 em Cartagena, na Espanha, e morreu no dia 02 de abril de 1969. Creio que ela veio para Belém com a tia Luzia. Quando eu comecei a ter discernimento familiar, a tia Maria Lúcia já não morava mais em casa. Ela teve cinco filhos, todos nascidos em Belém:

Eleonor, nascida em 26 de agosto de 1934, que teve o filho Jorge Marcelino Bassalo da Silva, nascido no dia 26 de agosto de 1958. Os dois mudaram-se para o Rio de Janeiro, em 1970. Jorge formou-se em Administração de Empresas e atualmente trabalha na área da Tecnologia da Informação. Casou-se com Maria Fátima dos Santos em 09 de julho de 1983, nascida no Rio de Janeiro em 20 de julho de 1959. Fátima é formada em Publicidade e Propaganda e atualmente exerce sua função na PETROBRÁS. Jorge e Fátima têm os seguintes filhos: Rodrigo dos Santos Bassalo da Silva, nascido em 30 de dezembro de 1985, no momento cursando a Faculdade de Turismo Hélio Alonso (FACHA), e os gêmeos Thiago e Gabriel dos Santos Bassalo da Silva, nascidos em 11 de dezembro de 1992, também na “Cidade Maravilhosa”.

O segundo filho de tia Lúcia, o Carlos Alberto, nasceu em 07 de maio de 1936, é hoje militar reformado da Marinha. Nos anos 50, mudou-se para o Rio de Janeiro. Casou-se, em 01 de maio de 1964, com Celina de Moraes Braga, nascida em 20 de outubro de 1939, também paraense, professora e pedagoga, tiveram quatro filhos e todos cariocas: Lucélia de Moraes Braga Bassalo, nascida em 25 de abril de 1965, é pedagoga, Mestre em Educação e professora universitária (a quem agradeço as informações da família de tia Lúcia); Carlos Alberto Bassalo Junior, nascido em 07 de setembro de 1966, é Tecnólogo em Processamento de Dados, exercendo a profissão de Analista de Sistema. Ele casou-se com Cristina Gonçalves e teve os seguintes filhos: Thaís, de 19 de março de 1999, e Daniel, de 18 de junho de 2003. O terceiro filho de meu primo Carlos, Lauro César, nasceu em 12 de fevereiro de 1971, Oficial Aviador da Aeronáutica pela Academia da Força Aérea (AFA), casou-se em Natal, em fevereiro de 1996, com Andréa Pontes de Paiva. Ele morreu em um acidente de aviação, no dia 07 de maio de 1996, em Macapá, onde fora fazer um Curso de Pilotagem de Helicóptero para Resgate na Selva. A caçula Luciana nasceu em 08 de fevereiro de 1975, engenheira, casou-se com Francimário Arcoverde Gomes, arquiteto e urbanista, em 14 de fevereiro de 2004.

Depois do Carlos, a tia Lúcia teve mais três filhos: Maria de Lourdes, nascida em 02 de agosto de 1942, exerceu a profissão de contabilista durante toda a vida profissional em empresas privadas e, ao se aposentar, era responsável pelo Setor de Contabilidade da Pina Intercâmbio de Pesca; Maria da Graça, de 08 de outubro de 1947, professora normalista e contabilista, hoje funcionária pública federal aposentada. Em 12 de dezembro de 1970, casou-se com Antonio Augusto de Oliveira Vilhena, nascido em 28 de janeiro de 1938, também contabilista, e tiveram a filha Andréia, nascida em 03 de março de 1972, advogada que atua na área trabalhista. Recordo que, quando criança, brinquei muito com o Orlando, irmão do Antonio, na casa deles na Rua dos Tamoios. Eles eram filhos do dono do Café Manduca. Por fim, o último filho de tia Lúcia, o Ildefonso, era comerciário, nasceu em 23 de janeiro de 1940 e faleceu em 20 de dezembro de 1982.

Dos filhos de tia Lúcia, Eleonor e Carlos Alberto eram os que mais nos visitavam. Por sua vez, a Eleonor, quase da minha idade, era com quem eu mais brincava quando criança. Recentemente, quando telefonei para ela, que mora no Rio de Janeiro, para completar algumas informações que me foram repassadas por sua sobrinha e minha prima Lucélia, ela lembrou-me de que nós dois brincávamos muito com nossa avó Tereza. Eu, no entanto, gostava de malinar um pouco com ela. Por exemplo, ela já cega devido a uma catarata bem avançada, sentava em uma cadeira perto de uma mesa na varanda de nossa casa. Quando ela se levantava, eu retirava a cadeira. No entanto, quando ela ia se sentar, eu a repunha para ela não se machucar. Quem tem acompanhado essa minha saga deve se lembrar de que, anteriormente, descrevi meu relacionamento com ela quando ainda não estava cega.

Tios maternos: José, Paulo e Felice

Conheci apenas meu tio materno José, nascido em 1897 e falecido no dia 23 de dezembro de 1945, que também era sapateiro, como meu pai, casado com a também italiana Anunciata Pignataro, nascida em 14 de março de 1909 e falecida em 15 de setembro de 1975, e que teve o filho Antonio. Este, que nasceu em 15 de fevereiro de 1931, mora ainda na mesma casa da Rua Arcipreste Manoel Teodoro - onde meu tio tinha sua oficina de consertar sapatos - com sua esposa (casaram-se em 26 de fevereiro de 1983) Maria Madalena Santarém Moreira, nascida em 23 de julho de 1934, e seus dois enteados: José de Arimatéia e Kátia Kelly, nascidos em 28 de fevereiro de 1967 e 12 de dezembro de 1977. Registro que esse meu primo materno foi um excelente eletricista da antiga Companhia de Eletricidade do Pará (CELPA), na qual trabalhou de 1961 até 1992, quando então se aposentou. Os outros tios maternos, Paulo e Felice ficaram na Itália. Só conheci minha avó paterna: Tereza, que morava conosco. Ela tinha raízes gregas. Não conheci meus avós maternos: Paulo e Madalena. Apenas conheci a esposa do tio Paulo, tia Tereza Pallazo Filardo e seu filho, também Paulo (casado com Itália), em viagem que fiz a Casteluccio Inferiore, na Província de Potenza, Itália, em agosto de 1991, conforme registrei em outro artigo dessas minhas reminiscências. Conheci, também, a prima Madalena, filha de meu tio Felice Filardi. Aliás, creio ser oportuno dizer que meus tios maternos, Paulo e Felice, tiveram o sobrenome diferente: Filardo e Filardi, respectivamente. Segundo contou-me meu primo Paulo, essa diferença ocorreu na ocasião do registro deles no cartório de Castelluccio Inferiore.

B. MINHA VIDA DE CASADO

Nesta segunda parte familiar de minhas Memórias, vou contar minha vida a partir de meu casamento com Célia Mártires Coelho, no dia 06 de outubro de 1962. Antes, vou descrever como chegamos ao casamento.

Muito embora eu freqüentasse a casa da Célia, na Praça da República 158 (segunda casa depois do final do Grupo Escolar “Floriano Peixoto”) nas ocasiões em que eu ia ensinar Topografia e Maneabilidade para seu irmão, Joaquim-Francisco, meu colega no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR), em 1956, eu só vim a conhecê-la quando fui seu professor de Física no 2o. Ano Clássico, no Colégio Estadual “Paes de Carvalho” (CEPC), em 1957. A razão de nunca a ter visto quando, na varanda de sua casa, me reunia com o Joaquim, era porque, segundo ela me contou mais tarde, a sua saudosa tia Anna dos Santos Mártires (“tia Anita”), irmã de sua mãe Celina, a “escondia” para que nenhum colega de seu irmão pudesse vê-la. Nessa época, suas outras irmãs, que eu não conhecia: Marcionila (“Marcinha”), as gêmeas Rosa Maria e Ana Maria, e a Tereza Lusia (“Teté”), ainda eram muito jovens e, portanto, não sofriam essa restrição. Nessa época, a irmã mais nova, a Maria do Socorro, ainda não havia nascido.

Quando entrei pela primeira vez na sala da turma da Célia (ver a relação de seus colegas em outro artigo dessas lembranças), no começo de março de 1957, simpatizei logo com ela. Essa simpatia eu a manifestava da seguinte maneira. A disciplina rígida imposta pela então direção do CEPC não permitia que o aluno entrasse em sala depois da entrada do professor. Assim, quando me aproximava de sua sala, a que ficava logo na saída do lado direito da escada, localizada no pátio interno do recreio dos homens (naquela época, os recreios dos alunos e das alunas eram separados), e percebia que ela ainda não havia entrado, eu embromava um pedaço, conversando com outros alunos, até vê-la chegar, para então entrarmos juntos.

O namoro, contudo, não aconteceu de imediato. Embora houvesse uma simpatia mútua, conforme ela me confessou depois, nosso relacionamento só começou por volta de outubro de 1957. Creio ser oportuno fazer um parêntesis para dizer que, hoje, esse relacionamento seria considerado “assédio sexual” do professor contra a sua aluna. Voltemos ao nosso namoro. Sabendo que ela era filha de um intelectual importante em Belém, o professor Machado Coelho, sendo eu filho de um sapateiro e de uma lavadeira, embora já fosse acadêmico de Engenharia e colega de seu irmão, não acreditava que ela pudesse me “dar bola”, como se dizia naquela época.

Uma primeira tentativa de namoro ocorreu por ocasião de uma festa que aconteceu na Avenida Presidente Vargas (creio que foi no Caixaparah) e na qual acertamos conversar. No entanto, um problema de doença ocorrido com um parente dela, a fez adiar essa conversa. Lembro-me de que, quando cheguei na festa, perguntei por ela ao seu colega Agiz Bechir Elias. Como não a vi, cheguei a comentar com ele que, certamente, ela não estava interessada em mim. O Agiz imediatamente me disse que não era verdade, o que estava pensando e explicou-me a razão da ausência, a acima referida. Creio se oportuno dizer que os colegas dela torciam pelo nosso namoro. Também é oportuno registrar que essa minha dificuldade em namorar com meninas de nível econômico maior do que o meu decorria de algumas tentativas frustradas que tive. Por exemplo, certo dia, creio que por volta de 1956, eu estava em uma das festas promovidas pelo Clube da Mocidade (clube criado pelo saudoso Lauro Meneses Veloso, meu colega do DMER, juntamente com seu concunhado, o médico Lourival Barbalho), olhei para uma moça de classe média e pedi para irmos dançar. Logo depois, no meio do salão, ela me disse: Vou-lhe deixar. Largou-me e fiquei parado no meio do salão. Envergonhado, marquei a porta de saída e saí da festa. Até hoje não sei a razão dessa recusa. Certamente, creio eu, era porque eu não sabia dançar direito.

Como não chegamos a nos encontrar na festa a que me referi anteriormente, a Célia não sabia que eu era um péssimo dançarino (o que, aliás, permaneço até hoje). Assim, mais tarde, em uma das inúmeras brigas que tivemos, com o término do namoro, marcamos um encontro na casa de uma colega dela e também minha aluna no CEPC, a Doralinda Pereira Bahia onde haveria uma pequena festa. A Célia foi com uma das irmãs, a Marcinha. Assim que nos encontramos lá, pedi para dançarmos. Ao aceitar, perguntei-lhe logo se poderíamos voltar o namoro. Como a Célia aceitou, e para não pisar nos seus pés, demos dois rodopios e paramos.

Voltemos ao encontro frustrado que tive com a Célia, antes de iniciarmos o namoro. Em virtude desse desencontro, resolvi falar com ela no término de uma aula na qual havia resolvido, para a sua turma, alguns problemas de Mecânica. Para essa resolução, eu usara o Volume Primeiro do livro Problemas de Física de Guilherme Bonfim Dei Vegni-Néri (Livraria Francisco Alves, 1941). Com esse livro na mão, pe