OPINIÕES |
BATENTE QUASE MEMÓRIA ¹
Milton Augusto Freitas de Meira
Em sua mesa de trabalho ele vai juntando manuscritos em quantidade. A espera tem o seu tempo certo para quem não se esconde nas estantes do passado. Como cidadão ativo escreve o que sente no curso da vida, estuda, vai desbravando caminhos através de livros e outros instrumentos importantes para o seu desenvolvimento intelectual e moral. Inquieto se projeta no tempo de uma centelha para somar esforços na área do conhecimento; tem a sua maneira de ser quando vai ao encontro de si mesmo no seu momento intuitivo, seguindo seu caminho trabalhando intensamente, produzindo conhecimentos e dando prova de sua abnegação como professor emérito. Na sua luta cotidiana comunica-se abertamente, harmonizando idealismo com ações concretas no seu momento de construção. Íntegro e confiante no que faz tem o seu jeito próprio de mostrar contradições em oratórias informais, às vezes inflamado por impulsos na excelência do pensar “filocientífico” na prazerosa esquina dos poetas: para os estudiosos da ciência e da filosofia, o “filocientificismo” é também fruto de uma esquina urbana em um céu plenamente azul, que no calor “cosmopoético” está em comunhão com a natureza e seus mistérios.
Dois mil e cinco é mais um ano de festas do calendário gregoriano e a tradição diz que o mês de junho é dedicado aos santos mais influentes no cenário popular folclórico sentimental do povo brasileiro. Atentos que são a fogos de artifício e ardentes fogueiras os andarilhos do cotidiano também festejam suas conquistas em clima de festa. Olho este céu azul, agora encorpado com nuvens brancas e mormacentas, que me faz olhar para o alto e pensar na chuva como solução do momento. Estou diante de um semáforo, são alguns segundos de espera sob o signo do Sol, as mangueiras ainda servem de refúgio e amenizam o calor deste início de tarde: para quem constrói caminhos o encontro da chuva é um tempo de colheita, deixando na terra uma semente que floresce, tudo vem e volta no tempo de um percurso, sempre que há um momento para pensar no que foi construído ao longo dos anos, não importa se nuvens brancas fiquem acinzentadas como se fosse um véu divisor aos olhos humanos. Neste cosmo ainda persiste o olhar atento dos inquietos e engenhosos construtores do saber, desde os mais remotos sinais da existência humana.
O sinal verde do semáforo movimenta pedestres debaixo de uma velha mangueira, olho uma rua que um dia foi um corredor de procissões no seu traçado secular, tempo em que a boa nova era também lembrada no canto dos pássaros, mesmo que não houvesse um céu plenamente azul. Eles ainda vivem sob o signo da esperança no horizonte real da memória, quando voltado em uma dimensão de olhar inteiramente ligado a um rio de água corrente, denso, à medida que o contador de estórias divaga no seu tempo, incansável e criativo, quando se revela atento ao mundo que vive: matura-se também o filósofo na sua viagem através da ciência, sem perder a ternura neste céu aparentemente longínquo.
Em uma rua de mangueiras aquela batente tem o seu lugar em uma calçada bem larga, hoje um caminho de janelas com sinais de silêncio, chamando no tempo um vão de porta que dava passagem a um outro corredor, um caminho de livros sinalizando moinhos para os poetas escritores e artistas visionários. Neste corredor de caminhos duas casas tinham uma parede em comum e o mesmo pé direito, mas o engenheiro se dava conta do seu espaço quando havia um céu se revelando na matéria com o seu tempo de explosão, conflito, onde a seiva do antagonismo foi centelha no mundo das idéias e suas projeções na arte da dialética. Este corredor ainda é pródigo ao humanista que vai ao encontro da modernidade no frenético ritual dos navegantes siderais, atento ao olhar e ao sentir, percurso sempre bem aventurado para quem faz o verbo florescer. O céu azul de outrora permanece azul e o tempo que ficou para trás não é apenas um tempo que passou, algo ficou no rastro da chuva depois de muitos caminhos já percorridos. Vale a pena divagar em palavras quando se juntam manuscritos a serviço da memória, colocados em ordem para dar ciência sob o signo da verdade, que faz do amigo um cavaleiro já realizado no vasto campo do saber que o consagra no seu magistério exemplar. Amigo Bassalo, um abraço fraterno.
CARO AMIGO BASSALO ²
Milton Augusto Freitas de Meira
O céu azul, agora encorpado com nuvens brancas, me faz olhá-lo e pensar na chuva como solução. Amenizando o calor neste início de tarde, as mangueiras ainda servem de refúgio para quem quer caminhar sob o signo do Sol. Quem faz um percurso deixando sementes na terra encontra na chuva um tempo de colheita, ele vem e volta sempre que há um momento para parar e pensar debaixo de frondosas mangueiras, que fizeram de uma rua um corredor de procissões em seu traçado secular. Muitas vezes o céu ficava plenamente azul, no tempo em que a boa nova era também lembrada no permanente canto dos pássaros. Eles ainda vivem sob o signo da esperança, não importa se nuvens brancas fiquem acinzentadas como se fosse um véu divisor aos olhos humanos, nesse cosmo persiste o olhar inquieto dos engenhosos construtores do saber desde os mais remotos sinais da existência humana. Chamando no tempo esse céu aparentemente longínquo mas real, pretenso ao filósofo e ao cientista em seu universo criativo, matura-se também o olhar da memória no humanista que viaja através do conhecimento. A velha batente ainda tem o seu lugar naquela rua de mangueiras que um dia se chamou de Avenida São Jerônimo, hoje um caminho de janelas com sinais de silêncio: em um quarteirão de calçada bem larga o vão de uma porta dava passagem a um outro corredor, um caminho de livros encontrando poetas, escritores e artistas visionários. Neste corredor de caminhos o engenheiro se dava conta do seu espaço diante de um céu já consagrado pela ciência e de suas leis fundamentais: a seiva do antagonismo foi centelha no mundo das idéias com intensas projeções na arte da dialética, conflito inevitável quando este céu tinha o seu mundo na matéria e no seu tempo de explosão. Igualmente atento ao olhar e ao sentir vai ao encontro do afeto, harmonizando convicções no tempo que quer caminhar. O tempo que ficou para trás não é apenas um tempo que passou, algo ficou no rastro da chuva depois de muitos caminhos já percorridos. O céu de outrora permanece azul no frenético ritual dos navegantes siderais, percurso da modernidade nos que pensam na boa nova em uma nova calçada com um novo tempo de esquina. Vale a pena divagar em palavras quando se juntam manuscritos, já colocados em ordem para dar ciência sob o signo da verdade, que faz do amigo um cavaleiro já realizado no vasto campo do saber, que o consagra no seu magistério exemplar. A palavra é sempre bem-aventurada quando faz o verbo florescer. Agora mais um café bem forte e um cesto de pães, para brindar o que é mais importante na vida, amizade sincera e convivência fraterna. Acredito na eternidade do espírito, um grande abraço do amigo Milton Meira.
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1. Artigo escrito em junho de 2005.
2. Artigo escrito em 7 de junho de 2005.