PERFIS |
MENDES: DE PROFESSOR A AMIGO FRATERNO ¹
Muito embora o nome do Professor Francisco Paulo do Nascimento Mendes já fosse bastante conhecido no meio estudantil do Colégio Estadual ``Paes de Carvalho” (CEPC), onde estudava desde 1947, só fui conhecê-lo pessoalmente, em 1951, quando fui seu aluno no então primeiro ano do Curso Científico, na cátedra de Português, composta das disciplinas Literatura Portuguesa e Literatura Brasileira. Esse conhecimento se aprofundou, nos dois anos subsequentes, quando, também, fui seu aluno nessa mesma disciplina.
Dessa época de estudante, ainda me lembro de suas brilhantes aulas sobre os escritores portugueses e brasileiros, bem como de um fato que me marcou, relacionado à sua personalidade de crítico mordaz e irreverente, com a qual convivi e apreciei bastante até sua morte, em maio de 1999.
Em 1953, quando cursava o terceiro ano do Curso Científico, não fui muito bem em uma composição mensal que havia realizado com o professor Mendes. Como era seu hábito, ele fazia sempre um comentário ao entregar as notas aos alunos. Assim, quando chegou a minha vez, ele disse: Seu Bassalo, você está mudado, não é mais o bom aluno que foi nos anos anteriores. Então, um colega meu, o Sílvio Samuel Moreira Aflalo, que sentava nas últimas filas de carteira, disse o seguinte: É mesmo Professor, ele até está mudando de voz. Imediatamente, o professor Mendes retrucou: O engraçadinho pode se retirar. Como o Sílvio não se manifestasse, veio a sentença final: Seu Sílvio, pode se retirar. Sílvio saiu, mas antes, pediu desculpas ao Mestre pela brincadeira que havia feito comigo.
Mais tarde, tive oportunidade de conviver com o professor Mendes em outras situações: como amigo de meu sogro, professor Machado Coelho e como colega de Magistério no CEPC e na Universidade Federal do Pará (UFPA).
No entanto, foi como amigo de meu sogro que a nossa amizade começou e se transformou em amizade fraternal, o que, então, me permitiu tratá-lo apenas como Mendes. Sendo amigo e compadre de Machado Coelho, Mendes ia diariamente a sua casa, para participar do grupo de intelectuais que ali se reunia, à noite, para conversar sobre o cotidiano da vida e, via de regra, essa conversa descambava para a literatura, que era o forte daquele grupo. Nessa reunião, conhecida como varanda do Machado Coelho, por diversas vezes, vi discussões acaloradas entre Mendes e meu sogro. No entanto, quando a discussão não chegava a um acordo, Mendes saia furioso e prometia não voltar mais. Porém, se sua ausência ultrapassava 24 horas, meu sogro mandava um de seus filhos à casa do amigo para saber se ele estava doente. Compreendendo essa atitude, Mendes voltava a freqüentar a varanda machadiana.
Como várias facetas da personalidade do Mendes já foram apresentadas nos vários depoimentos que fazem parte das duas homenagens que já lhe foram prestadas, quais sejam, a reedição de sua tese Raízes do Romantismo (UFPA, SECTAM, 1999) e Projeto Memória: Chico Mendes (UNAMA, 1999), vou completar esse depoimento ao querido e saudoso Mendes, realçando alguns aspectos de minha formação intelectual que teve a sua participação.
Durante muitos anos, por ocasião do Natal, Mendes e eu festejávamos essa data máxima da cristandade mundial, presenteando-nos livros. Assim, dentre os vários livros ``natalinos” que recebi do Mendes, sempre inéditos, pelo menos para mim, dois deles foram bastante importantes para a minha saga de cronista da Física: o que recebi no Natal de 1976, intitulado Diálogos sobre Física Atómica (editorial Verbo, 1971), do físico alemão Werner Karl Heisenberg, Prêmio Nobel de Física de 1932, e o recebido no Natal de 1979, A Imaginação Científica (Zahar Editores, 1979), do historiador da ciência, o norte-americano Gerald James Holton, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.
A leitura desses livros foi importante para que eu pudesse entender um tema que me fascinava e ainda me fascina: a imaginação de cientistas engajados no ato de fazer ciência. Assim, por exemplo, o livro de Heisenberg, no qual ele apresenta a sua autobiografia ``intelectual”, há uma descrição bem detalhada de como ele chegou a sua grande contribuição à Física Contemporânea: o Princípio da Incerteza, e que provocou, e ainda provoca, a maior polêmica científico-filosófica de nosso Século: o indeterminismo físico.
Por sua vez, o livro de Holton me mostrou como a tradição funciona como um verdadeiro dogma no trabalho de pesquisa de um cientista. Isso ficou bastante evidenciado na descrição de Holton sobre a polêmica entre os físicos, o norte-americano Robert Andrews Millikan, Prêmio Nobel de Física de 1923, e o austríaco Felix Ehrenhaft, ocorrida entre 1909 e 1910, sobre a existência de partículas menores que o elétron. Muito embora as experiências realizadas por esses físicos (principalmente as de Ehrenhaft) indicassem a existência de “subelétrons”, isto é, partículas com carga elétrica menor do que a carga do elétron, a tradição de que o elétron era a menor partícula carregada eletricamente (idéia essa que vinha desde os gregos antigos), fez com que ambos rejeitassem tais partículas. É interessante registrar que a idéia da existência de uma partícula de carga menor que a carga eletrônica, o quark, foi apresentada pelo físico norte-americano Murray Gell-Mann, Prêmio Nobel de Física em 1969, em 1964. No entanto, embora sua existência já tenha sido indiretamente comprovada, até o presente momento, ela ainda não foi detectada livremente.
Ao finalizar esse depoimento sobre meu saudoso e dileto amigo Mendes, gostaria de registrar a inteira confiança que ele depositava em mim, pois, além de tratar de todos os seus assuntos na UFPA, também era eu quem fazia a declaração de seu Imposto de Renda.
---------
1. Artigo publicado no livro O Amigo Chico: Fazedor de Poetas (Organizador: Benedito Nunes) (SECULT, 2001)